SpudCells e princípio vital: desafios da biologia sintética ao pensamento espírita
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por Elton Rodrigues

Introdução
Em julho de 2026, a divulgação das chamadas SpudCells reacendeu uma pergunta antiga: o que distingue a matéria viva da matéria não viva? Segundo a apresentação feita pela equipe liderada por Kate Adamala, da Universidade de Minnesota, trata-se de um sistema celular sintético, construído a partir de componentes químicos conhecidos, capaz de executar etapas fundamentais do ciclo celular: aquisição de recursos, crescimento, replicação do material genético, divisão e seleção entre variantes. A pesquisa foi disponibilizada como pré-publicação e ainda aguarda avaliação formal por pares, razão pela qual qualquer conclusão deve ser formulada com prudência.
Ainda assim, o caso é relevante. A SpudCell não é simplesmente uma célula natural modificada geneticamente, como em trabalhos anteriores de biologia sintética. Sua importância está justamente no esforço de construção “de baixo para cima” (bottom-up): parte-se de componentes moleculares definidos para produzir um sistema com propriedades semelhantes às de uma célula viva. Segundo a página técnica do projeto, o sistema contém membrana lipídica, um genoma de cerca de 90 mil pares de bases e dezenas de enzimas purificadas, sendo capaz de crescer, replicar seu genoma, dividir-se e apresentar competição entre variantes ao longo de gerações sucessivas.
A notícia gerou manchetes apressadas sobre a “criação da vida em laboratório”. Essa formulação, porém, exige cuidado. A própria equipe envolvida e vários especialistas consultados pela imprensa científica destacam que as SpudCells ainda não são células plenamente autônomas. Elas dependem de um meio cuidadosamente preparado, de componentes fornecidos externamente e de condições artificiais de laboratório. Não possuem ainda a complexidade metabólica, regulatória e relacional de uma célula natural. Portanto, mais do que afirmar que a vida foi criada, talvez seja mais adequado dizer que funções essenciais associadas ao vivo foram parcialmente reconstruídas em um sistema sintético.
É justamente nessa fronteira entre matéria organizada, processos vitais e definição de vida que o tema se torna relevante para o espiritismo. Desde Allan Kardec, a tradição espírita emprega a noção de princípio vital para distinguir a matéria organizada dos corpos vivos da matéria inerte. O avanço da biologia sintética não resolve, por si só, todos os problemas filosóficos relacionados à vida, à consciência e ao espírito. Mas ele pressiona diretamente uma questão conceitual: se processos vitais podem ser cada vez mais reconstruídos a partir de componentes físico-químicos conhecidos, que sentido ainda resta para a ideia de princípio vital?
O que as SpudCells colocam em questão?
A biologia sintética contemporânea não surgiu com as SpudCells. Ela se desenvolveu a partir de diferentes programas de pesquisa: a síntese de genomas, a construção de organismos mínimos, a engenharia de circuitos genéticos, a pesquisa sobre protocélulas e os estudos sobre a origem da vida. Em 2010, por exemplo, o grupo associado ao J. Craig Venter Institute anunciou uma célula bacteriana controlada por um genoma quimicamente sintetizado. Em 2016, o mesmo campo avançou na direção de genomas bacterianos mínimos. Em ambos os casos, porém, tratava-se de células já existentes, simplificadas ou reprogramadas.
A novidade atribuída às SpudCells está em outro ponto. O objetivo é montar um sistema celular a partir de componentes previamente conhecidos, de modo que suas funções possam ser descritas e controladas com maior precisão. Mesmo que o resultado ainda esteja distante de uma célula natural, o avanço é conceitualmente significativo: ele mostra que algumas operações fundamentais da vida podem ser aproximadas por arranjos materiais suficientemente organizados.
Isso não elimina a dificuldade de definir vida. Ao contrário, torna a questão mais complexa. A vida não parece ser uma propriedade simples, presente ou ausente de modo absoluto. Ela pode ser entendida como um conjunto de processos: metabolismo, fronteira individual, troca com o meio, autorregulação, hereditariedade, reprodução, evolução e manutenção de uma organização dinâmica. Um sistema pode realizar algumas dessas funções e não outras. Por isso, as SpudCells habitam uma zona de fronteira: não são simples matéria inerte, mas também não correspondem plenamente à vida celular natural.
Essa zona intermediária é filosoficamente importante. Ela enfraquece a ideia de que a vida dependa necessariamente de um “sopro” ou de uma substância imaterial acrescentada à matéria. Ao mesmo tempo, não autoriza a conclusão simplista de que a vida esteja completamente explicada. O que se vê é um deslocamento: a pergunta deixa de ser “qual substância misteriosa dá vida à matéria?” e passa a ser “que tipo de organização material permite a emergência de propriedades vitais?”.
O princípio vital no espiritismo kardeciano
Em Kardec, a noção de princípio vital aparece associada à vida orgânica. Os corpos orgânicos seriam aqueles que possuem uma fonte de atividade íntima responsável pelos fenômenos da vida, enquanto os corpos inorgânicos não a possuiriam. Esse vocabulário está em sintonia com o ambiente intelectual do século XIX, período em que ainda circulavam fortemente teorias vitalistas e concepções fluidistas da natureza.
É importante compreender esse ponto historicamente. Ou seja, Kardec não escrevia à luz da biologia molecular, da genética moderna ou da bioquímica contemporânea. Seu vocabulário pertence a um momento anterior à consolidação de muitos conhecimentos que hoje estruturam a biologia. A célula, a hereditariedade, o metabolismo e os mecanismos moleculares da vida ainda não eram compreendidos nos termos atuais. Nesse contexto, a hipótese de um princípio vital parecia oferecer uma explicação para a diferença entre matéria viva e matéria inerte.
O ponto crítico é que a biologia posterior caminhou em direção diferente. A fisiologia, a bioquímica, a genética, a teoria celular, a biologia molecular e, mais recentemente, a biologia sintética mostraram que os fenômenos vitais podem ser descritos por mecanismos físico-químicos complexos. A vida deixou de ser explicada como efeito de uma força separada e passou a ser investigada como organização dinâmica da matéria.
Esse desenvolvimento não exige que o espiritismo abandone imediatamente toda reflexão sobre a vida. Mas exige que se pergunte: o princípio vital deve ser entendido como uma entidade real, como uma força física desconhecida, como uma hipótese histórica ou como uma categoria filosófica para pensar a organização dos seres vivos?
Três leituras possíveis
Diante dos avanços da biologia sintética, podemos identificar ao menos três leituras possíveis do princípio vital.
A primeira é a leitura literal-vitalista. Nela, o princípio vital seria uma força ou substância específica, responsável por animar a matéria orgânica. Essa interpretação conserva com maior fidelidade a linguagem do século XIX, mas enfrenta grande dificuldade diante da biologia contemporânea. Quanto mais os processos vitais são reconstruídos, modelados e manipulados em laboratório, menor parece o espaço explicativo para uma força vital concebida como causa biológica independente.
A segunda leitura é a reinterpretativa. Nesse caso, o princípio vital não seria tratado como uma substância oculta, mas como uma forma histórica de nomear a organização própria dos sistemas vivos. Ele designaria o conjunto de processos que tornam possível a vida, isto é, metabolismo, integração funcional, comunicação interna, fronteira membranar, reprodução, conservação da individualidade biológica e interação com o meio. Essa leitura permite preservar uma preocupação filosófica legítima, mas abandona o vitalismo de maneira acentuada.
A terceira leitura é a metafísica ou espiritualista ampliada. Segundo ela, a ciência descreve os mecanismos materiais da vida, mas não esgota sua razão última. Nesse caso, o princípio vital não competiria diretamente com a biologia, pois não seria uma causa físico-química localizada. Ele pertenceria a outro nível de interpretação. Essa posição é possível, mas deve ser formulada com cuidado. Se for usada apenas para proteger conceitos antigos contra qualquer revisão, torna-se uma hipótese irrefutável e, por isso mesmo, pouco fecunda intelectualmente.
A alternativa mais promissora parece ser a segunda: reinterpretar o princípio vital à luz da biologia contemporânea, sem transformá-lo artificialmente em sinônimo de conceitos científicos atuais. Não se trata de dizer que Kardec “antecipou” a biologia sintética. Também não se trata de declarar que as SpudCells “refutaram” o espiritismo. O mais prudente é compreender que certas categorias da codificação espírita pertencem a um vocabulário científico historicamente situado e precisam ser examinadas criticamente.
Considerações finais
A biologia sintética está tornando cada vez mais difícil sustentar um vitalismo biológico forte, entendido como a necessidade de uma força especial para explicar os processos da vida. As SpudCells não encerram esse debate, mas deslocam seus termos. Contudo, mostram que propriedades associadas ao vivo podem emergir de arranjos materiais conhecidos, cuidadosamente organizados em laboratório. Nesse sentido, elas não tensionam apenas a noção espírita de princípio vital, mas também a própria classificação do que entendemos por ser vivo.
Tradicionalmente, a distinção entre vivo e não vivo foi construída a partir de critérios como metabolismo, crescimento, reprodução, hereditariedade, resposta ao meio e capacidade evolutiva. O problema é que sistemas como as SpudCells parecem ocupar uma zona intermediária: não são organismos naturais plenamente autônomos, mas também não podem ser reduzidos a simples matéria inerte. Elas realizam algumas funções típicas da vida, ainda que dependam fortemente de condições laboratoriais e de componentes fornecidos externamente. Com isso, a pergunta “isto está vivo ou não?” talvez precise ser substituída por uma questão mais refinada: “em que grau e sob quais critérios este sistema participa dos processos que caracterizam a vida?”.
Para o espiritismo, essa mudança é relevante. Se o princípio vital for tomado como explicação biológica literal, tende a entrar em tensão crescente com a ciência contemporânea. Se, porém, for reinterpretado como categoria histórica ou filosófica para pensar a organização dos seres vivos, pode ainda conservar valor reflexivo, desde que não seja apresentado como entidade científica demonstrada. O avanço das SpudCells sugere que talvez a vida não seja uma propriedade simples, presente ou ausente de modo absoluto, mas um conjunto de processos organizados que podem aparecer em diferentes graus de complexidade.
Talvez o maior desafio contemporâneo seja preservar perguntas fortes sem se apegar a respostas fracas. A vida pode ser cada vez mais compreendida como organização dinâmica da matéria. A consciência, porém, continua sendo um problema aberto. E é nessa fronteira — entre matéria organizada, vida, consciência e espírito — que o diálogo entre espiritismo, ciência e filosofia talvez encontre seu terreno mais promissor.
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