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Os “reinos da natureza” em Kardec e na biologia atual: por que é preciso contextualizar?

  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

por Elton Rodrigues

A expressão “reinos da natureza” aparece na tradição espírita, especialmente em O Livro dos Espíritos, dentro de um vocabulário herdado da história natural do século XIX. Kardec trabalha com uma divisão muito conhecida em sua época: reino mineral, reino vegetal e reino animal, admitindo ainda, em certo sentido, uma quarta classe associada ao homem. Na questão 585, pergunta-se justamente sobre a divisão da natureza em três reinos ou em duas grandes classes (seres orgânicos e inorgânicos), ao que a resposta afirma que essas divisões são aceitáveis “conforme o ponto de vista”. Em seguida, o texto distingue matéria inerte, plantas, animais e ser humano, atribuindo a cada grupo diferentes graus de vitalidade, instinto, consciência e inteligência.

Figura 1: Imagem de A General View of the Animal Kingdom, de A. M. Redfield, publicada em 1857, o mesmo ano da primeira edição de O Livro dos Espíritos. A gravura organiza os animais em grandes grupos, como vertebrados, articulados, moluscos e radiados, refletindo uma classificação baseada sobretudo em características morfológicas observáveis. Embora não represente os três reinos da história natural (mineral, vegetal e animal), a imagem ajuda a visualizar o horizonte científico anterior à consolidação da biologia evolutiva moderna, iniciada com a publicação de A origem das espécies, de Darwin, em 1859.

Essa forma de dividir a natureza não era estranha à ciência da época. Desde Lineu, no século XVIII, a história natural organizava os “corpos naturais” em três grandes reinos: mineral, vegetal e animal. Em um extrato de Systema Naturae, de 1735, encontra-se a formulação de que os corpos naturais se dividem nos reinos mineral, vegetal e animal; os minerais “crescem”, as plantas “crescem e vivem”, e os animais “crescem, vivem e sentem”. Essa linguagem revela algo importante: o termo “reino”, nesse contexto, não correspondia exatamente ao conceito moderno de reino biológico. Ele servia como uma grande categoria da história natural, incluindo inclusive os minerais, que hoje não fazem parte da classificação biológica dos seres vivos. Portanto, quando Kardec fala em “três reinos”, ele não está usando uma taxonomia biológica no sentido contemporâneo. Está mobilizando o repertório científico-filosófico disponível no século XIX para discutir gradações entre matéria, vida, instinto, inteligência e consciência. Ou seja, a Kardec dialoga com a ciência de seu tempo, mas não antecipa automaticamente a biologia moderna. O risco interpretativo aparece quando se lê a classificação kardequiana como se ela fosse uma descrição científica definitiva da diversidade da vida. Não é.

Figura 2: Diagrama zoológico de A. M. Redfield, publicado em 1857, representando uma classificação do reino animal no século XIX. Embora não apresente todos os “três reinos” da história natural, a imagem ilustra o tipo de organização classificatória vigente no período em que Kardec publicou O Livro dos Espíritos.

A biologia mudou profundamente desde então. A invenção e o aperfeiçoamento do microscópio já haviam colocado problemas para a antiga divisão entre plantas e animais, mas foi sobretudo nos séculos XIX e XX que os microrganismos tornaram essa divisão insuficiente. Ernst Haeckel, em 1866, propôs o reino Protista para abrigar organismos microscópicos que não se encaixavam bem nem entre plantas nem entre animais; estudos históricos lembram que os protistas de Haeckel incluíam vários organismos microscópicos conhecidos à época, inclusive formas agrupadas sob o termo “Monera”.

No século XX, a classificação avançou ainda mais. Robert H. Whittaker propôs, em 1969, o conhecido sistema dos cinco reinos: Monera, Protista, Fungi, Plantae e Animalia. Sua proposta respondia ao fato de que as relações evolutivas e os modos de organização dos seres vivos eram melhor representados por classificações novas do que pela antiga oposição entre plantas e animais. A inclusão dos fungos como reino próprio foi particularmente importante, pois eles não são plantas: não realizam fotossíntese como as plantas e possuem formas próprias de nutrição, organização celular e relação ecológica. Depois disso, a biologia molecular modificou novamente o quadro. Com a comparação de sequências de RNA ribossômico e outros dados moleculares, Carl Woese, Otto Kandler e Mark Wheelis propuseram, em 1990, uma classificação superior aos reinos: os três domínios da vida - Bacteria, Archaea e Eucarya. Essa mudança foi decisiva porque mostrou que os organismos antes agrupados genericamente como “bactérias” escondiam uma diversidade evolutiva profunda. As arqueias, por exemplo, não são simplesmente “bactérias estranhas”; representam uma linhagem fundamental da vida celular.

Figura 3: Representação didática do sistema dos cinco reinos: Moneras, Protistas, Fungos, Plantas e Animais. Embora ainda muito usado em contextos escolares, esse modelo já mostra que a diversidade da vida é mais complexa do que a antiga classificação em reino mineral, vegetal e animal.

Hoje, portanto, quando se pergunta “quantos reinos existem?”, a resposta depende do sistema adotado. Em muitos contextos escolares, ainda se ensina o modelo de cinco reinos. Em outros, usa-se uma classificação de seis reinos, separando Bacteria e Archaea. Há ainda propostas mais especializadas, como sistemas de seis reinos com diferentes arranjos internos, incluindo revisões de Cavalier-Smith. Além disso, a taxonomia contemporânea não é apenas uma lista fixa de grupos, área científica dinâmica, continuamente revista à luz de dados morfológicos, ecológicos, genômicos e filogenéticos. Até os códigos de nomenclatura são periodicamente revisados por congressos internacionais, como ocorre com o Código Internacional de Nomenclatura para algas, fungos e plantas.

Isso não significa que Kardec “errou” no sentido trivial de ter usado uma classificação inadequada para sua época. Ao contrário, ele usou categorias correntes no horizonte intelectual do século XIX. O ponto é outro. Significa que a linguagem científica presente nos textos kardequianos precisa ser lida historicamente. Ela pertence a uma fase da história natural anterior à biologia evolutiva moderna, à microbiologia contemporânea, à genética molecular, à sistemática filogenética e à classificação por domínios.

Figura 4: Classificação contemporânea dos seres vivos em três domínios: Bactérias, Arqueias e Eucária e seis reinos. Esse modelo evidencia como a biologia atual ampliou a antiga divisão entre vegetal e animal, incorporando microrganismos e relações evolutivas reveladas pela microbiologia e pela biologia molecular.

Essa contextualização é importante por pelo menos três razões. A primeira é metodológica: uma doutrina que afirma valorizar a razão e o diálogo com a ciência não deve transformar categorias científicas provisórias do século XIX em dogmas intocáveis. A segunda é histórica: compreender Kardec exige compreender o vocabulário científico disponível em sua época. A terceira é filosófica: a questão central do capítulo “Os três reinos” não é apenas taxonômica, mas diz respeito à continuidade entre matéria, vida, instinto, consciência e espírito. Assim, o problema não está em reconhecer que a Codificação contém linguagem científica datada. O problema estaria em negar esse fato. A classificação mineral–vegetal–animal pertence à tradição da história natural, não à biologia atual. Hoje sabemos que os seres vivos incluem bactérias, arqueias, protistas, fungos, plantas e animais, organizados em relações evolutivas muito mais complexas do que a antiga escala dos três reinos permitia imaginar. Ademais, minerais não são “reino” biológico; são objetos da mineralogia, da química e da geologia, não da sistemática dos seres vivos.

Uma leitura intelectualmente honesta da Codificação, portanto, deve distinguir dois níveis. No primeiro, há o conteúdo histórico-científico, que precisa ser atualizado, contextualizado e, quando necessário, abandonado como descrição da natureza. No segundo, há o problema filosófico-espiritual que Kardec procurava formular, que é pensar de qual forma ocorre a passagem da matéria bruta à vida, da vida à sensibilidade, da sensibilidade à inteligência e da inteligência à consciência moral. Essa pergunta pode continuar filosoficamente relevante, mas não deve ser sustentada por uma biologia ultrapassada.

Em síntese, a classificação dos reinos em Kardec deve ser lida como documento de época. Ela testemunha o esforço de articular espiritismo, filosofia natural e ciência no século XIX. Mas a biologia contemporânea opera com outros critérios, outros dados e outro vocabulário. Contextualizar Kardec não enfraquece o estudo espírita; ao contrário, torna-o mais rigoroso. Impede que se confunda fidelidade doutrinária com imobilismo conceitual e permite que o diálogo com a ciência seja real, e não apenas retórico.

Referências

CAVALIER-SMITH, Thomas. A revised six-kingdom system of life. Biological Reviews, v. 73, n. 3, p. 203–266, 1998.

HAECKEL, Ernst. Generelle Morphologie der Organismen. Berlin: Georg Reimer, 1866.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Capítulo XI: Dos três reinos. Questões 585–591.

KUTSCHERA, Ulrich. Haeckel’s 1866 tree of life and the origin of eukaryotes. Nature Microbiology, v. 1, 16114, 2016.

LINNAEUS, Carl. Systema Naturae. Leiden, 1735.

TURLAND, Nicholas J. et al. International Code of Nomenclature for algae, fungi, and plants (Shenzhen Code). Regnum Vegetabile 159. Glashütten: Koeltz Botanical Books, 2018.

WHITTAKER, Robert H. New concepts of kingdoms of organisms. Science, v. 163, n. 3863, p. 150–160, 1969.

WOESE, Carl R.; KANDLER, Otto; WHEELIS, Mark L. Towards a natural system of organisms: proposal for the domains Archaea, Bacteria, and Eucarya. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, v. 87, n. 12, p. 4576–4579, 1990.


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