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Por um letramento científico no movimento espírita: rigor, discernimento e responsabilidade intelectual

  • Foto do escritor: Elton Rodrigues
    Elton Rodrigues
  • 18 de jan.
  • 6 min de leitura

por Elton Rodrigues



Em muitos debates dentro do movimento espírita brasileiro (MEB), é comum ver um vocabulário “com cara de ciência” circulando com força: prova, experimento, evidência, método, pesquisa. Isso, por si só, não é ruim. Na verdade, pode ser um excelente sinal: mostra que existe interesse em dialogar com racionalidade, com critérios e com responsabilidade intelectual.


O problema começa quando essas palavras viram apenas um selo de autoridade — quando “parece científico” substitui “foi realmente investigado”. Aí, em vez de a ciência funcionar como ferramenta de crítica, ela vira uma retórica decorativa: bonita, convincente e vazia.


Este texto é uma versão introdutória e acessível de um tema que estou desenvolvendo com mais profundidade em um artigo acadêmico em produção para a Revista Matéria, Espírito e Sociedade (RMES) — uma revista de caráter acadêmico, na qual a discussão será ampliada com maior rigor conceitual, recortes metodológicos e análise mais detalhada de casos e argumentos.

Quando a conversa fica “travada”


No cotidiano do MEB, certas conversas costumam transitar numa zona de tensão: de um lado, há pessoas sinceramente interessadas em dialogar com método e clareza; de outro, persistem leituras que confundem testemunho com evidência, opinião com prova, e linguagem científica com investigação científica.


De um lado, a aceitação rápida de qualquer narrativa que pareça “compatível” com a crença. Do outro, a negação total, feita a partir de critérios rígidos (ou inadequados) para fenômenos complexos, especialmente aqueles atravessados por dimensões psicológicas, culturais e institucionais. A consequência é que a conversa deixa de ser sobre critérios e passa a ser sobre pertencimento, defesa de posição e disputa de autoridade.


Alfabetização não é a mesma coisa que letramento


No campo educacional, existe uma distinção importante que ajuda a pensar o problema: alfabetização e letramento não são sinônimos. Alfabetização, em sentido clássico, é adquirir habilidades técnicas de leitura e escrita. Já letramento envolve o uso competente e socialmente situado dessas habilidades — interpretar, avaliar, criticar, argumentar, compreender o contexto e os objetivos do texto (SOARES, 2004).


Na prática, isso significa algo simples: uma pessoa pode ler um texto perfeitamente e ainda assim não conseguir avaliar se aquilo tem coerência interna, se as conclusões são justificadas ou se há evidência real por trás do que está sendo afirmado.


Quando o assunto é ciência, o raciocínio é parecido. “Saber termos científicos” não é o mesmo que saber lidar com ciência. O letramento científico envolve justamente essa capacidade: interpretar argumentos, reconhecer limites, avaliar inferências e compreender o que faz uma evidência ser forte ou fraca (CUNHA, 2012; CHASSOT, 2003).


O caso que todo espírita já viu: “energia”


Se existe uma palavra que exemplifica bem essa confusão entre “linguagem científica” e “conceito científico”, essa palavra é energia.


Em muitas práticas discursivas no interior do MEB, “energia” aparece como explicação totalizante:

energia do ambiente, energia do pensamento, energia do passe, energia pesada, energia boa…


O ponto aqui não é ridicularizar a forma como as pessoas falam - até porque todo mundo usa metáforas no cotidiano. O problema aparece quando “energia” vira uma espécie de categoria de fechamento explicativo, isto é: uma palavra que encerra o assunto em vez de organizá-lo.


Na Física, energia não é um “fluido invisível” nem uma “substância espiritualizada” que circula resolvendo tudo. Energia é uma grandeza formal, com unidade definida, usada para descrever estados e transformações, dentro de leis que permitem previsões quantitativas (HALLIDAY; RESNICK; WALKER, 2013). E há uma ênfase famosa nesse ponto: energia não é “uma coisa” que você encontra dentro do objeto como se fosse um ingrediente oculto; ela é uma quantidade que se conserva nos processos naturais e é útil justamente por seu caráter operacional e matemático (FEYNMAN; LEIGHTON; SANDS, 1963).


Ou seja, a palavra pode existir nos dois contextos, mas o sentido muda completamente. Quando não percebemos essa mudança, começa a confusão: a metáfora é tratada como conceito técnico, e aí ela passa a ser usada como se fosse “prova” ou “explicação científica”.


É justamente por isso que, dentro do próprio campo espírita, há autores propondo uma aproximação mais cuidadosa entre conceitos, linguagem e critérios, insistindo na necessidade de educação científica do movimento e em um uso mais rigoroso de noções como matéria e energia antes de transportar analogias para o debate espiritualista (FONSECA, 2016; FONSECA, s.d.).


Kardec e o ponto-chave


Esse cuidado, aliás, é coerente com uma diretriz importante na própria obra kardequiana: a recusa em transformar “milagre” numa autorização para abandonar leis e critérios.


Em A Gênese, quando Kardec discute o milagre no sentido teológico, ele o define como uma “derrogação das leis da natureza” (KARDEC, 2019, cap. XIII, item 1). E argumenta que o avanço do conhecimento tende a deslocar explicações baseadas em exceções para explicações baseadas em regularidades naturais. Em O Livro dos Espíritos, o raciocínio é semelhante: as intervenções do mundo espiritual ocorreriam para o cumprimento das leis naturais, e não para suspendê-las arbitrariamente (KARDEC, s.d., q. 526).


O ponto central aqui é simples: o Espiritismo não ganha força quando troca método por palavras bonitas. Ele ganha força quando sustenta suas discussões com clareza, critérios e honestidade intelectual.


O caso A Gênese


Um exemplo bem claro de como debates se tornam “travados” aparece nas controvérsias em torno de A Gênese. Não é necessário tomar partido no conteúdo da disputa para perceber o mecanismo social: muitas vezes, evidências não mudam opiniões porque o problema não é só ter evidência, é o que cada grupo aceita como evidência.


No debate público analisado por Wilson Garcia, a questão central é justamente essa: quando critérios de validação e pertencimento identitário já estão estabilizados, as evidências podem ser neutralizadas, reinterpretadas ou desqualificadas sem que a pessoa se sinta “irracional” por isso (GARCIA, 2026). Em outras palavras: o conflito não é apenas informacional; ele é também simbólico, comunitário e identitário.


E é aqui que o letramento científico faz diferença: ele não garante consenso, mas muda o tipo de pergunta que organiza a conversa.


Em vez de “quem está certo?”, entram perguntas como:


  • O que exatamente está sendo afirmado?


  • O que contaria como evidência forte a favor e contra?


  • Quais fontes são primárias e quais são interpretação?


  • O argumento se apoia em rastreabilidade ou em autoridade?


  • Qual o nível de incerteza do que está sendo defendido?


Essas perguntas não tiram o debate do movimento espírita. Elas apenas retiram o debate do improviso.


Conclusão


O letramento científico, no contexto espírita, não deveria ser visto como ameaça à espiritualidade, mas como uma forma de governança intelectual: ele reduz ambiguidade conceitual, protege contra atalhos retóricos e fortalece uma cultura de estudo mais séria, transparente e criticável.


No fim, a escolha é simples: usar “ciência” como enfeite ou usar critérios como ferramenta. O letramento científico não serve para “calar” temas espirituais, serve para que eles sejam discutidos com mais rigor, menos ruído e mais honestidade.


Referências




 
 
 

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