O Espírito de Jesus comunicando-se por meio das batidas
por Henry C. Wright, 1851

Seis anos antes da publicação de O Livro dos Espíritos, em 1857, já circulavam nos Estados Unidos relatos que buscavam compreender as chamadas “batidas espirituais” como fenômenos passíveis de investigação. Um desses documentos é o opúsculo The Spirit of Jesus Communicating Through the Rappings!, publicado em Rochester, Nova York, em 1851.
O texto é assinado por Henry C. Wright e registra experiências realizadas com Mrs. A. L. Fish, identificada como Ann Leah Fox Fish, além de outras sessões e comunicações atribuídas a diferentes espíritos. Wright deixa claro que não pretendia tratar o tema como milagre ou manifestação sobrenatural. Seu interesse era investigar a possibilidade de comunicação entre vivos e mortos como um problema ligado à “ciência do homem” e à natureza social humana.
O documento é particularmente interessante por situar-se nos primeiros anos do espiritualismo moderno, ainda muito próximo dos acontecimentos de Hydesville. Também chama atenção pelas tentativas de controle relatadas por Wright, como perguntas formuladas mentalmente, ocultação das palavras e testes com informações que ele afirmava desconhecer.
A seguir, apresentamos a tradução integral do documento.

O ESPÍRITO DE JESUS
COMUNICANDO-SE POR MEIO DAS BATIDAS!
Rochester, Nova York
1851
Em todas as épocas, a Verdade combate o Erro e sempre acaba conquistando a vitória.
Syracuse, 8 de maio de 1851
Caro amigo:
Escrevi para o Tribune um relato de minha entrevista com a Sra. Fish, de Rochester, e com a Sra. Tamlin, de Auburn. As comunicações provenientes daquilo que afirmava ser o espírito de Jesus, o espírito de meu pai e o espírito de N. P. Rogers, deixo com você para que faça delas o uso que desejar. Caso as publique em forma de folheto, por favor acrescente esta nota como explicação.
Examinei o assunto unicamente como uma questão de Ciência Natural, relacionada à natureza social do homem e ao intercâmbio social entre os seres humanos que aqui se encontram e os espíritos daqueles que passaram para a esfera seguinte.
Esta, e somente esta, é para mim a questão.
Somos seres sociais. Enquanto permanecemos neste estado, estaria nossa natureza social limitada apenas àqueles que estão conosco no corpo? Ou, caso seja adequadamente desenvolvida, poderíamos trocar nossos pensamentos e sentimentos com aqueles que nos precederam? Poderiam eles simpatizar conosco e fazer-nos perceber sua presença e sua simpatia?
Como questão de Antropologia, relativa à natureza social do homem, este assunto possui para mim profundo interesse. Se esse for realmente o alcance de nossa capacidade social, é de enorme importância que isso se torne conhecido.
O sacerdócio de todas as terras constitui o mais formidável obstáculo ao progresso da humanidade. Seu poder fundamenta-se unicamente no mistério que paira sobre a esfera seguinte; é daquele estado que extraem os argumentos com os quais fortalecem e perpetuam seu domínio esmagador sobre as almas.
Aqueles que contribuem para levar os homens a contemplar com amor e familiaridade a passagem deste estado para outro, colocando as duas esferas, em suas mentes, numa relação agradável, amistosa e social, prestam à humanidade um serviço cujo valor ainda não pode ser plenamente apreciado.
Rejeitando toda ideia de milagroso e sobrenatural, espero sinceramente que este ramo da CIÊNCIA DO HOMEM seja investigado até que se possa determinar satisfatoriamente se temos ou não o privilégio de manter livre intercâmbio social com aqueles que passaram antes de nós para o próximo estado.
Quero conhecer toda a extensão e todo o poder da natureza social do homem.
Por que não investigá-la?
HENRY C. WRIGHT
***
O ESPÍRITO DE JESUS
COMUNICANDO-SE POR MEIO DAS BATIDAS
[Para o Tribune]
Rochester, 18 de abril de 1851
Sr. Editor:
Encaminho-lhe os seguintes fatos, ocorridos na presença de várias testemunhas.
Às sete horas da noite passada, visitei a Sra. A. L. Fish, a fim de obter todas as evidências que pudesse para esclarecer a questão do intercâmbio social entre esta esfera e a próxima, assunto atualmente discutido nos círculos sociais e domésticos de toda esta nação.
Uma mesa quadrada foi colocada no aposento, com duas velas acesas sobre ela. Quatro pessoas sentaram-se à mesa, uma de cada lado, e outras duas permaneceram no cômodo, mas não junto à mesa.
Assim que nos sentamos, começaram as batidas debaixo, sobre e ao redor da mesa.
Depois que respostas e comunicações foram dadas a outras pessoas, perguntei, adotando a linguagem daqueles associados a esses fenômenos:
“Há aqui algum espírito que queira comunicar-se comigo?”
Foram dadas três batidas enfáticas. Como é bem conhecido, essa é a maneira de expressar uma resposta afirmativa.
Perguntei então:
“O espírito que deseja comunicar-se comigo dará duas batidas quando eu repetir mentalmente o nome que ele assume?”
Resposta: três batidas.
Eu havia escrito oito nomes:
Paulo, Pedro, João, Jesus, Isaías, Mateus, Lutero, Calvino.
Nenhuma pessoa presente ou ausente poderia saber quais nomes eu havia escrito, ou sequer se eu havia escrito algum.
Comecei então a pensar nos nomes.
“É Paulo?” Nenhuma batida.
“É Pedro?” Nenhuma batida.
“É Jesus?”
Duas batidas distintas e fortes foram produzidas sobre a mesa.
Perguntei então, mentalmente:
“Jesus deseja comunicar-se comigo?”
Resposta: três batidas.
Enquanto repetia os nomes, meu rosto estava desviado da Sra. F. Não movi a língua nem os lábios.
Em seguida, por meio de uma operação puramente mental, sem mover um músculo, perguntei:
“Como Jesus veio à existência? Foi pelo mesmo processo através do qual outros homens entram neste mundo?”
Imediatamente ouviram-se três fortes batidas e um insistente pedido pelo alfabeto, sendo cinco batidas o sinal utilizado para isso.
Uma pessoa presente possuía uma pequena tira de papel na qual o alfabeto estava impresso. Ela me foi entregue. Coloquei-a sobre a mesa, suficientemente distante da Sra. Fish e numa posição em que ela não pudesse ver as letras nem distingui-las umas das outras.
Preparei pena, tinta e papel para registrar eu mesmo as letras nas quais as batidas fossem produzidas.
Enquanto percorria mentalmente o alfabeto, meu rosto permanecia voltado para longe da Sra. Fish, e meus olhos e lábios estavam ocultos dela. À medida que pensava nas letras, não movia a língua, os lábios nem os dedos, exceto em poucas ocasiões em que apontava para as letras com um lápis na mão esquerda. Quando fazia isso, ocultava deliberadamente o papel da Sra. F., de modo que ela não pudesse ver para qual letra eu apontava.
Ainda assim, as batidas eram produzidas.
Meu rosto também permanecia deliberadamente oculto dela, para impedir que, observando alguma alteração em minha expressão, pudesse determinar em qual letra deveria bater.
Comecei então a percorrer mentalmente o alfabeto e, em resposta aos meus pensamentos não verbalizados, determinadas letras foram indicadas pelas batidas, formando as seguintes frases.
A? Nenhuma batida.
B? Nenhuma batida.
C? Nenhuma batida.
D? Nenhuma batida.
E? Nenhuma batida.
F? Nenhuma batida.
G? Nenhuma batida.
H? Nenhuma batida.
I?
Batida, batida!
Essa, portanto, era a primeira letra da comunicação que eu estava prestes a receber.
Não a pronunciei, apenas a escrevi, e comecei novamente a percorrer mentalmente o alfabeto.
Nenhuma batida ocorreu até que meu pensamento chegasse à letra W.
Então:
Batida, batida!
Escrevi a letra sem pronunciá-la.
Comecei novamente a percorrer o alfabeto mentalmente. As batidas ocorreram na letra A. Registrei-a e reiniciei o processo. As batidas vieram na letra S.
Assim obtive:
“I was” — “Eu era”.
Prossegui dessa forma até que a palavra “Mortal” fosse soletrada e registrada.
Perguntei então:
“A frase ‘EU ERA MORTAL’ está correta?”
Três batidas responderam afirmativamente.
Parei de percorrer mentalmente as letras, supondo que aquela fosse a resposta à minha pergunta. Mas ouviu-se novamente um forte e insistente pedido pelo alfabeto.
Continuei a percorrê-lo mentalmente sem mover um músculo.
Foi então obtida a frase adicional:
“como os outros homens”.
Tínhamos agora:
Eu era mortal como os outros homens.
Parei novamente, e novamente veio um insistente pedido pelo alfabeto.
Continuei percorrendo-o mentalmente, ocasionalmente apontando alguma letra com um lápis.
Nenhuma batida ocorreu até que eu chegasse ao J.
Batida, batida!
Em resposta àquele pensamento.
Obtive assim “Jes”.
Perguntei em voz alta:
“‘Jes’ está correto?”
Três batidas responderam.
“É Jesse?”, perguntou a Sra. F.
“É Jesus?”, perguntou o Sr. B.
Nenhuma batida respondeu a qualquer das duas perguntas.
“O que faz você pensar que era Jesus?”, perguntou a Sra. F.
“O que faz você pensar que era Jesse?”, perguntou o Sr. B.
Prossegui então mentalmente pelo alfabeto como antes.
As batidas seguintes ocorreram no U e depois no S.
Dessa maneira, foi soletrada a seguinte frase:
Jesus é um espírito puro e santo.
Perguntei então mentalmente:
“Tudo o que foi escrito por Mateus, Marcos, Lucas e João a respeito do nascimento, da vida e da morte de Jesus, conforme registrado no Novo Testamento, é verdadeiro?”
Nenhuma batida.
O silêncio, segundo me informaram, equivalia a uma resposta negativa.
Perguntei novamente, mentalmente, como anteriormente:
“Sob que perspectiva devemos considerar a morte de Jesus? Como a morte de outros mártires da verdade ou como algo que possui alguma característica peculiar?”
Imediatamente houve três batidas e um forte pedido pelo alfabeto.
Comecei rapidamente a percorrer as letras mentalmente e a registrar cada uma na qual ocorria uma batida.
Logo foram formadas as seguintes frases:
Muitos compreendem mal o segredo. Há coisas que vocês conhecerão posteriormente. Chegou agora o tempo em que o preconceito e a superstição devem cessar.
Aqui terminou a comunicação daquilo que afirmava ser o espírito de Jesus.
Não sei o que pensar disso.
Foi realmente aquele espírito puro que produziu essas batidas em resposta aos meus pensamentos?
Eu gostaria de acreditar que sim.
Não consigo formular para mim mesmo nenhuma razão válida para negá-lo. Nenhuma explicação poderia parecer-me mais irracional e misteriosa do que afirmar que a Sra. F. produziu essas batidas em resposta aos meus pensamentos não expressos, a menos que pudesse ser provado que ela conhecia o que se passava em minha mente enquanto meus olhos estavam fechados, minha língua, meus lábios e minhas mãos imóveis e meu rosto voltado para outra direção.
Além disso, o rosto da Sra. F. estava voltado para longe de mim, em direção ao Sr. B., com quem conversava, enquanto palavras e frases inteiras estavam sendo soletradas.
Durante parte do tempo ela lia uma carta que acabara de receber, colocada sobre a mesa, mantendo os olhos fixos nela.
Evidentemente, não conhecia o nome indicado por aquilo que produzia as batidas em resposta aos meus pensamentos.
Não foram as batidas em si que me impressionaram, mas o fato de que eram produzidas em resposta aos meus pensamentos não expressos.
E, por esse processo, as frases anteriormente mencionadas foram soletradas, sem que a Sra. F. tivesse qualquer participação em recitar o alfabeto, registrar as letras, sílabas e palavras ou formular as perguntas.
Seria possível que o espírito de Jesus conhecesse e se comunicasse assim com meus pensamentos?
Pode alguém que acredita na imortalidade da alma apresentar uma razão que lhe pareça satisfatória para demonstrar que o espírito de Jesus não poderia ter-me transmitido, ou não transmitiu, a comunicação acima?
É certo que o autor das batidas podia ler meus pensamentos!
Esse é o mistério.
***
Outra comunicação foi-me transmitida, alegadamente proveniente de S. B., pessoa que jamais vi e de quem nunca ouvira falar até 1848, mas que conhecia muito de meus trabalhos em favor da abolição da escravidão, da não resistência e de outras reformas.
Foi a seguinte:
Meu caro amigo: o árduo trabalho pela reforma será abençoado, e você finalmente realizará suas obras. Em breve colherá a recompensa de seu trabalho!
Hoje, à uma hora e meia da tarde, visitei novamente a Sra. F., desejando obter toda a luz possível sobre a questão do intercâmbio entre esta esfera e a próxima.
Imediatamente quatro pessoas sentaram-se ao redor da mesa.
Assim que nos sentamos, produziu-se uma verdadeira tempestade de batidas, variando em rapidez, intensidade e ênfase. Algumas pareciam tímidas e fracas; outras eram fortes, imperativas e expressavam grande ousadia e decisão.
A Sra. F. observou:
“Os espíritos estão felizes em vê-lo.”
Perguntei então:
“Há algum espírito presente que queira comunicar-se comigo?”
Três batidas fortes e enfáticas.
“O espírito soletrará seu nome por meio do alfabeto?”
Nenhuma batida.
Imaginando que fosse o mesmo espírito que havia respondido aos meus pensamentos na noite anterior, perguntei:
“O espírito dará duas batidas quando eu pensar em seu nome dentre aqueles que escrevi?”
Veio um insistente pedido pelo alfabeto.
O alfabeto foi então recitado e foram soletradas as seguintes frases:
Meu nome não está escrito. Posso responder pelos espíritos de meus conhecidos. Sou seu pai. Meu filho, acompanho suas ocupações diárias, embora você nem sempre esteja consciente disso.
Perguntei:
“O espírito dará duas batidas quando eu repetir mentalmente o nome de meu pai?”
Três batidas.
Então, com o rosto voltado para longe da Sra. Fish, sem mover a língua ou os lábios, repeti mentalmente os nomes:
John, Jacob, George, David, Charles, Seth.
Duas batidas distintas foram produzidas quando meu pensamento chegou a Seth.
Esse era o nome de meu pai.
Para testar aquilo que produzia as batidas, perguntei:
“O espírito dará duas batidas quando eu repetir mentalmente a doença da qual meu pai morreu?”
Três batidas.
Pensei:
Tuberculose?
Febre?
Cólera?
Doença do coração?
Rompimento de um vaso sanguíneo?
Duas fortes batidas ocorreram quando pensei em:
Rompimento de um vaso sanguíneo.
Meu pai caiu na estrada, ao caminhar de seu celeiro para casa, e morreu imediatamente.
Posteriormente verificou-se que um vaso sanguíneo na região do coração havia se rompido, causando sua morte.
Nenhuma das pessoas então presentes em Rochester, exceto eu, tinha conhecimento desse fato.
Quis testar as batidas fazendo mentalmente uma pergunta cuja resposta eu próprio desconhecia.
“O espírito indicará por batidas a idade de meu pai?”
Três batidas.
“Dará uma batida para cada dez anos de sua idade?”
Foram dadas seis batidas fortes e completas.
“Ele tinha sessenta anos?”
Três batidas.
“O espírito dará uma batida para cada ano acima de sessenta?”
Sete fortes batidas e uma mais fraca.
“Ele tinha sessenta e sete anos e mais alguns meses?”
Três batidas fortes e confiantes.
Eu tinha certeza de que estava errado.
Pensava que meu pai não fosse tão velho e manifestei meu desapontamento, pois aquela parecia ser a primeira pergunta que havia recebido resposta incorreta.
A Sra. F. perguntou:
“Você sabe a idade de seu pai?”
“Não”, respondi, “mas posso descobrir.”
Depois de deixar a casa da Sra. F., verifiquei a informação e descobri que ele tinha sessenta e sete anos e sete meses.
Perguntei então:
“Meu pai aprova minha atuação como defensor da abolição da escravidão, da não resistência e de outras reformas radicais?”
Foram soletradas as seguintes frases:
Sim! Falo à sua mente, meu filho, quando o vejo trabalhando pela causa da humanidade. Irei adiante e prepararei o caminho para você. Seu caminho segue em frente. Você usará a coroa da honra entre os bem-aventurados!
Apresento os fatos acima conforme ocorreram e conforme foram registrados naquele momento.
Demonstrariam eles que existe uma lei de nossa natureza pela qual espíritos que passaram para a esfera seguinte podem comunicar-se com aqueles que ainda permanecem no corpo, e que podemos perceber sua presença, sua simpatia e seus conselhos?
Espero e confio que continuarei a existir para sempre depois que deixar o corpo; contudo, não me preocupo muito em saber o que serei ou o que farei no grande futuro.
Enquanto estou aqui, desejo apenas saber o que devo fazer e como devo agir neste estado.
Quando o futuro se tornar presente, ocuparei-me dele.
Parece-me extremamente insensato desperdiçar o presente tentando solucionar o futuro.
Minha única tarefa aqui é descobrir as leis sob as quais atualmente existo e obedecê-las.
Isso, e apenas isso, pode preparar-me para entrar na esfera seguinte.
Seria muito agradável sentir a presença e a simpatia daqueles que amamos e que nos precederam. Mas não me importo com o assunto a menos que eles possam instruir-nos quanto ao que devemos fazer e como devemos agir para elevar nossa condição neste estado.
Se os mortos podem orientar-nos por meio de uma sabedoria superior e sustentar-nos com sua simpatia na tarefa de eliminar os males da sociedade e promover aqui o progresso da humanidade em inteligência e bondade, então sua presença e seu apoio constantes seriam extremamente desejáveis.
Se podem fazer isso, deverá ocorrer de acordo com as leis fixas da natureza humana.
Não haverá nisso nada de sobrenatural ou milagroso.
As leis da natureza jamais são revogadas ou suspensas por qualquer motivo.
Espero sinceramente que se descubra fazer parte da economia de nossa natureza que os espíritos desta esfera possam manter conversação social com a próxima.
Isso aliviaria grandemente os fardos desta vida; removeria tudo aquilo que há de sombrio e repulsivo na passagem deste estado para o próximo e cercaria o futuro de luminoso encanto.
Livraria a existência de sua grande Trindade de horrores teológicos:
MORTE, JULGAMENTO e ETERNIDADE.
Isso faria com que o espírito amoroso e heroico e os princípios puros de Jesus parecessem ainda mais puros, amáveis e nobres.
Daria dignidade a esta vida e nos faria sentir que já estamos na eternidade, tanto quanto algum dia estaremos.
Acrescentaria valor ao homem enquanto homem e nos mostraria o erro de sacrificar o ser humano a circunstâncias acidentais.
Mas devo parar.
Se você considerar que a exposição acima pode ajudar a esclarecer o tema do intercâmbio social entre as duas esferas, poderá utilizá-la como desejar.
Quero luz e não hesitarei em procurá-la onde quer que se pense que possa encontrá-la.
Não é sábio nem digno recuar diante da investigação desta ou de qualquer outra questão por medo do ridículo, do desprezo ou da reprovação popular.
HENRY C. WRIGHT
***
RECEPÇÃO ESPIRITUAL
[Para o Tribune]
Rochester, 20 de abril de 1851
Na noite passada participei de uma reunião espiritual na casa de Geo. Willetts, nesta cidade.
Ela foi organizada da seguinte maneira.
Várias pessoas haviam convidado a Sra. Tamlin, de Auburn, a passar alguns dias aqui, pois ela era o principal médium das comunicações espirituais naquela localidade.
Na noite do dia 18, as pessoas que haviam convidado a Sra. Tamlin estiveram com ela na casa de Willetts e foram entretidas por uma música de som extremamente extraordinário e de delicada beleza.
Marcaram, então, novo encontro com ela para a noite do dia 19, na mesma casa, e pediram aos espíritos que indicassem quem deveria ser convidado.
Os espíritos passaram então a indicar os nomes.
Cerca de uma dúzia de pessoas foi convidada, e entre elas estava o meu nome.
Às sete horas da noite fui ao local. Os convidados chegaram.
Por orientação dos espíritos, uma grande mesa foi colocada no centro do aposento, e todos se sentaram ao redor, próximos dela, porém sem tocá-la. A Sra. T. estava no círculo, a aproximadamente quatro pés da mesa.
As luzes foram apagadas.
Não havia iluminação no aposento, exceto a proveniente do fogão, das persianas das janelas e um pouco de luz que entrava por uma porta parcialmente fechada.
Batidas foram repetidamente ouvidas nas proximidades da Sra. Tamlin.
Perguntou-se:
“O espírito de N. P. Rogers está presente?”
Três batidas afirmativas.
“N. P. Rogers nos permitirá ouvir a trompa fabiana?”
Três batidas.
Permanecemos algum tempo em silêncio, aguardando as primeiras notas da trompa.
Logo ela começou a soar como se estivesse a uma grande distância, com ecos semelhantes aos de uma trompa sendo soprada. Inicialmente era muito fraca, mas foi aumentando de volume e parecia aproximar-se cada vez mais, até que o som parecia estar junto às janelas da frente e, às vezes, dentro do próprio aposento.
Esses sons, fossem fracos ou fortes, distantes ou próximos, eram extremamente doces e musicais.
Repetiram-se diversas vezes durante a noite.
Pergunta:
“Os espíritos nos permitirão ouvir música?”
Resposta: três batidas.
Permanecemos algum tempo em silêncio, mas nenhuma música surgiu.
Perguntou-se então:
“Podemos fazer alguma coisa para tornar mais fácil aos espíritos produzir sons musicais?”
Resposta: pedido pelo alfabeto.
Foi soletrada a palavra:
Cantem.
Alguém começou então a cantar:
“Bem-aventurados são os filhos da paz”, em melodia muito solene e lenta.
Perguntou-se aos espíritos:
“Há alguém que vocês desejam indicar para cantar?”
Nenhuma resposta.
“A Srta. B. deve cantar?”
Nenhuma resposta.
“Todos devem cantar?”
Três rápidas batidas.
Alguém começou:
“Doce é a obra, meu Deus, meu Rei, louvar teu nome, dar graças e cantar...”, na antiga e solene melodia Wells.
Com esse tipo de música, a companhia mergulhou num estado de espírito extremamente solene e melancólico.
Enquanto cantávamos essas coisas, não houve acompanhamento nem qualquer outra manifestação dos espíritos.
Alguém sugeriu que conversássemos e ríssemos, em vez de nos deixarmos cair num estado de espírito sombrio e deprimido.
Diante dessa sugestão, o espírito de Rogers produziu três batidas extremamente enfáticas, tão rápidas e decididas que provocaram uma risada geral.
As batidas aumentaram, e a trompa fabiana voltou a ser ouvida.
Aquilo pareceu tão oportuno que as risadas se tornaram mais altas e alegres. Na mesma proporção, as batidas aumentaram em intensidade, rápidas e alegres, e a música da trompa elevou-se e cresceu, derramando-se pelo aposento numa torrente de harmonias arrebatadoras, tão repentina e emocionante que todos na sala soltaram exclamações.
Seguiu-se uma pausa de alguns minutos.
Nesse intervalo, a Sra. T. foi subitamente colocada em um estado magnético pelo espírito de Rogers, segundo ela informou enquanto se encontrava nesse estado.
Todos os presentes ignoravam que ela estivesse assim até que chamou Mary Bennett, que estava sentada num canto oposto do aposento, e pediu-lhe que viesse sentar-se ao seu lado.
Perguntaram-lhe:
“Que espíritos estão no aposento?”
Resposta:
“Rogers e três ou quatro outros.”
“Podemos ter mais música?”
Resposta:
“Vocês estão muito abatidos, não estão suficientemente vivos e alegres. Eles não querem que sejamos espalhafatosos, grosseiros, levianos ou frívolos; querem que sejamos animados e felizes. Estão tentando produzir música, mas não conseguem, porque estamos muito abatidos e sombrios.”
“Devemos cantar?”
“Sim, alguma coisa alegre.”
Duas pessoas começaram então, numa melodia muito solene, lenta e em tom baixo:
“Esta vida é o tempo de servir ao Senhor, o tempo de assegurar a grande recompensa...”
Continuavam cantando quando a Sra. T. interrompeu:
“Eles não querem isso. Isso é solene demais.”
Disse isso num tom de tamanho desprezo que todos riram.
O espírito de Rogers respondeu com três batidas, com a alegria de um leiloeiro concluindo um bom negócio.
Pergunta:
“O Sr. Wright deve cantar The Mountain Maids’ Invitation?”
Batida, batida, batida, da maneira mais enérgica.
Comecei então a cantar, numa melodia alegre:
Venham, venham, venham, pelas colinas, livres de preocupações,
Em minha casa compartilhem o verdadeiro prazer —
Flores doces, flores das mais raras.
Venham onde se encontra a alegria...
A Srta. Bennett juntou-se a mim.
Depois de terminarmos a primeira estrofe, um instrumento invisível, diferente de qualquer outro que eu já tivesse ouvido, começou um acompanhamento extremamente doce, delicado e harmonioso, mantendo perfeitamente o ritmo e desaparecendo gradualmente à medida que chegávamos ao final.
Tentamos cantar outra coisa, mas os espíritos pediram bis de Mountain Maids.
Cantamos novamente, desta vez com ainda mais entusiasmo, sabendo que tínhamos os espíritos do nosso lado.
O instrumento desconhecido acompanhou-nos de maneira ainda mais doce e distinta que anteriormente.
Após terminarmos, as batidas continuaram redobrando em animação, juntamente com a trompa e o instrumento.
Em bela harmonia, subitamente produziram uma rajada de música doce e emocionante que encheu completamente o aposento.
Propus cantar In the Days When We Went Gypsying, observando que havia sido a última canção que Rogers cantara em minha presença.
Três batidas responderam.
A Srta. B. disse:
“A Sra. T. está rindo tanto que quase morre.”
A Sra. T. disse:
“O Sr. Rogers está caminhando diretamente diante do Sr. Wright e curvando-se para ele.”
Perguntei:
“Rogers me tocará?”
Nenhuma resposta.
A Sra. T. disse:
“Ele diz que você é positivo demais; ele não consegue aproximar-se.”
Eu disse:
“Então que coloque a mão sobre minha cabeça e demonstre seu afeto por mim.”
Ela respondeu:
“Ele ama você e está tentando tocá-lo, mas não consegue. Você é positivo demais.”
Não pude deixar de rir intensamente, pois, enquanto o Sr. Rogers estava vivo, sempre brincava com o fato de eu ser tão positivo e dizia que jamais conseguia aproximar-se de mim.
Pergunta:
“O Sr. Rogers se lembra de uma carta que me escreveu enquanto eu estava em Grafenburgh?”
Três batidas fortes e alegres.
“Ele indicará, por meio de batidas, o número de pessoas que escreveram nela?”
Quatro batidas.
“Dará duas batidas se eu disser o nome das pessoas que escreveram?”
Resposta afirmativa.
Então mencionei:
N. P. Rogers? Duas batidas.
Mary Rogers? Duas batidas.
Ellen? Duas batidas.
A.? Nenhuma batida.
Caroline? Duas batidas.
Não tenho certeza absoluta da correção desse resultado.
Pergunta:
“Algum lugar foi mencionado no final daquela carta como sendo o local de nosso próximo encontro?”
Três batidas.
“Se eu mencionar vários lugares juntamente com o correto, poderei ouvir duas batidas quando chegar a ele?”
Três batidas.
Então mencionei:
Boston? Nenhuma batida.
Concord? Nenhuma batida.
Plymouth? Nenhuma batida.
América? Nenhuma batida.
Inglaterra? Nenhuma batida.
O Universo? Duas batidas.
Essa expressão havia sido utilizada no final da carta mencionada:
“Nós nos encontraremos novamente no Universo.”
Pronunciei todos esses lugares no mesmo tom de voz e fiz aproximadamente a mesma pausa depois de cada um.
Perguntei:
“O Sr. Rogers alguma vez fez comigo um passeio de trenó de Concord até Bradford?”
Três fortes e alegres batidas, tão animadas que todos riram.
“Ele cantou durante todo o caminho?”
Três batidas do mesmo caráter vivo e enérgico.
“Ele dará duas batidas se eu mencionar a canção correta entre várias outras?”
Resposta afirmativa.
Mencionei então várias canções, e, fiel à promessa, duas batidas regulares indicaram a correta:
In the Days When We Went Gypsying.
Durante o inverno de 1841–42, fiz realmente esse passeio com Rogers e, durante o caminho, ele cantou aquela música.
Perguntei:
“Eu alguma vez visitei Ailsa Craig, no Firth of Clyde, que você descreveu como o Lar dos Pássaros?”
Três fortes batidas.
“Você alguma vez me descreveu sua visita à Abadia de Melrose?”
Três batidas alegres.
“Eu alguma vez visitei a Abadia de Melrose?”
Três batidas, vigorosas como de costume.
Enquanto essa conversa ocorria entre mim e as batidas, a rapidez e a animação das respostas divertiam muito a companhia.
Eu havia visitado repetidamente Ailsa Craig e a Abadia de Melrose, como Rogers muito bem sabia antes de partir para o mundo dos espíritos.
Uma das pessoas presentes comentou:
“Rogers parece determinado a convencer H. C. Wright de sua presença.”
A resposta afirmativa usual veio tão rápida e decididamente que todos riram novamente.
Em outra ocasião, perguntei:
“Minhas concepções sobre a Bíblia são essencialmente corretas?”
Resposta: três batidas.
Rogers sabia que eu não considerava a Bíblia uma regra infalível de fé e prática.
Observei então que o clero seria o mais amargo e obstinado adversário dessa ideia de manifestações espirituais.
Responderam três batidas tão fortes e intensas que dificilmente consigo descrevê-las de outra maneira senão como golpes violentos.
Para determinar se essas batidas realmente pretendiam responder ao comentário, alguém formulou diretamente a pergunta:
“Os inimigos mais ferozes dessa questão serão encontrados dentro das igrejas e entre o clero?”
Três batidas mais fortes que quaisquer outras que havíamos ouvido, como se um homem tivesse golpeado violentamente a mesa com os nós dos dedos.
Pergunta:
“O único verdadeiro culto a Deus consiste em fazer o bem ao homem?”
Três batidas.
“Nossos deveres para com o homem abrangem todos os nossos deveres para com Deus?”
Três batidas.
Muitas outras questões importantes foram formuladas, relacionadas à escravidão e a outros males, assim como algumas referentes à nossa natureza espiritual, e receberam respostas altamente pertinentes, satisfatórias e encorajadoras.
Foram formuladas tantas perguntas, de caráter tão diverso e por tantas pessoas diferentes, que seria impossível recordá-las com clareza suficiente para apresentá-las detalhadamente.
Os fatos acima ocorreram conforme os descrevi.
Quanto à origem dessas manifestações, não sou daqueles que se entregam demasiadamente à especulação sobre o assunto.
HENRY C. WRIGHT
Nota editorial do IPMES: esta tradução procura preservar o sentido e a estrutura do documento original de 1851. Termos como “batidas”, “esfera seguinte”, “estado magnético” e “intercâmbio social” foram mantidos de forma próxima ao vocabulário empregado por Wright, evitando adaptar retrospectivamente o texto à terminologia espírita que se consolidaria apenas nos anos seguintes.
Agradecemos também ao perfil Corujismo pela pesquisa e pelo trabalho de recuperação e divulgação de fontes históricas relacionadas ao espiritualismo do século XIX. Iniciativas desse tipo são especialmente valiosas porque ajudam a trazer à circulação documentos pouco conhecidos, ampliam o acesso às fontes primárias e oferecem novos elementos para uma compreensão mais cuidadosa da história que antecede e acompanha o surgimento do espiritismo.
Quem quiser consultar a fonte diretamente também pode acessar o arquivo original de 1851 pelo link indicado abaixo. A leitura do fac-símile permite conferir a redação, a organização e as particularidades do documento tal como foi publicado. Texto original.



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