O Instituto Entrevista: Vozes da Fé, com Pablo de Melo
- Elton Rodrigues

- 15 de jan.
- 5 min de leitura

1. Fale um pouco sobre quem é você e sobre a sua trajetória até esse momento.
Bom, me chamo Pablo Melo. Conheci o Espiritismo no final de 1999, aos 21 anos. Nessa época, meu irmão tinha chegado em casa com O Livro dos Espíritos e eu fiquei curioso, comecei a folhear… e lembro que achei um monte de perguntas que eu mesmo já me fazia.
Na semana seguinte, eu fui com ele pro Centro e nunca mais deixei de ir. Apesar de estar com 21 anos, me deixaram ficar na mocidade. Depois disso, me casei e fui morar em outro bairro (Campo Grande, RJ). Comecei a trabalhar nos encontros de mocidades espíritas. Também colaborei no CEERJ (Conselho Espírita do Estado do RJ), ajudando na criação do portal, que não existia na época. Também ajudei nas filmagens das atividades do Instituto de Cultura Espírita, na Tijuca.
Ainda em Campo Grande, nos encontros de mocidades, eu fiz parte da coordenação da parte de mídia e participava também como coordenador de grupos de estudos. Sou integrante do GQA (Grupo Q Atua), que surgiu a partir de um desses encontros de mocidades e está ativo até hoje, com música, arte, dança e estudos cantados.
Depois de mais de uma década em Campo Grande, eu voltei para o meu bairro, Santa Cruz. Hoje frequento com a minha atual esposa a mesma casa que iniciei em 1999 e estou no meu terceiro mandato como diretor administrativo.
Com a pandemia e a grande quantidade de lives que foram surgindo, eu conheci os canais do Saulo Monteiro [Mediunidades], IDE-JF, Fronteiras do Pensamento Espírita, o que me fez perceber que eu não estava sozinho nos meus questionamentos… que realmente existiam coisas que não batiam no Espiritismo.
Uma coisa vai levando a outra e, mais ou menos na metade de 2023, eu criei um perfil pra poder divulgar todas essas questões que eu tinha - e que outras pessoas também poderiam ter. Então criei o Cavanhaque de Kardec, que no início era apenas para divulgação de cortes dessa galera, vídeos de poucos minutos só pra chamar atenção para os vídeos mais longos. Com o passar do tempo e pra não ficar repetitivo, comecei a criar outros tipos de postagens: figurinhas, vídeos de IA, etc… E hoje temos quase 7 mil seguidores.
2. Você se considera uma pessoa religiosa? Explique sua perspectiva sobre a sua relação com religião, religiosidade, crenças (ou descrenças) e sobre como você entende o mundo a partir disso.
Sendo bem direto: NÃO. Eu não me considero uma pessoa religiosa. E esse foi um dos motivos de tantos questionamentos que eu tinha no movimento espírita.
Eu nunca consegui aceitar a ideia de um governador terrestre, exilados de Capela, terceira revelação… Alguns comportamentos que eu via - e vejo até hoje - de pessoas fazendo coisas maquinalmente, sem nem mesmo questionar por que fazem, tipo o passe, a prece, água fluidificada. Reuniões mediúnicas (já participei também) que não fazem o menor sentido, não têm um objetivo… as pessoas sentam e começam a receber mensagens e dizem que têm espíritos sendo socorridos, sem procurar entender como isso se dá, por que isso se dá… nada.
Esse tipo de comportamento acaba definindo a pessoa religiosa do tipo espírita. E é justamente nesse ponto que eu não me identifico. Por isso eu sempre digo que eu sou espírita, mas não tenho religião.
3. Quais valores, princípios ou práticas (individuais e/ou coletivas) são centrais para você hoje? Como isso aparece no seu cotidiano — nas suas decisões, relações e na forma como você lida com dificuldades?
Pergunta complicada… kkkkk…..
Acredito que tudo deve girar em torno da pessoa ser honesta. Honesta com ela mesma, com os outros e, principalmente, com o que acredita - a tal honestidade intelectual.
Um exemplo que eu posso dar é sobre essa quantidade de informações que estão surgindo a partir de documentos de Kardec. Se uma informação dessas for contrária à forma como eu acreditava em algo, eu não vejo problema nenhum em seguir a nova informação.
Eu lembro que, quando começaram esses questionamentos sobre a adulteração de A Gênese, eu embarquei na ideia. Cheguei a dar estudos no centro espírita falando sobre isso. Depois surgiram documentos mostrando que A Gênese não foi adulterada, e eu simplesmente segui por esse caminho.
Eu acho que isso é ser honesto. E isso vale pra tudo. Eu vejo pessoas extremamente estudiosas falando sobre terceira revelação, Capela, e fico pensando como isso é desonesto, porque elas têm a possibilidade de pesquisar e entender. É uma coisa que me incomoda muito, porque não é questão de crença: é questão de estudo e comprovação.
4. Você participa de algum movimento, grupo, instituição ou frente de trabalho ligada à fé/espiritualidade? Conte qual é a sua atuação e o que você busca construir com isso (objetivos, público atendido, ações concretas e impactos percebidos).
Atualmente, desde 2025, eu venho me desligando de compromissos no campo do movimento espírita hegemônico, justamente por incompatibilidade.
Hoje eu faço parte do MEP — Movimento Espírita Progressista, estou à frente da Comunicação. Como é um movimento que ainda está no início, ainda tem muita coisa a ser organizada. Meu desejo é conseguir multiplicar esse movimento. Fazer com que o Espiritismo Progressista chegue até as pessoas.
5. Quais são os principais desafios ou mal-entendidos que você percebe sobre esse tipo de vivência/atuação? Como você busca dialogar com quem pensa diferente? E, para quem está conhecendo agora, como as pessoas podem acompanhar, participar ou apoiar (canais, projetos, eventos, contato)?
A meu ver, uma das principais dificuldades que eu encontro no movimento espírita hegemônico é a falta de diálogo. Como qualquer religião dogmática, não existe abertura para quem pensa diferente.
Quando alguém apresenta qualquer ideia que vai contra o sistema de crenças e valores que foram passados durante mais de um século para as pessoas, a pessoa é simplesmente cancelada, excluída.
Eu posso dar até um exemplo: no grupo de WhatsApp da casa onde sou um dos diretores, as minhas postagens foram censuradas, a ponto de ter que reunir toda a diretoria para estipular regras de postagens. Foi decidido que ninguém mais poderia postar nada que não fosse informação da casa.
Chega a ser um absurdo pensar que, diante de uma informação que poderia trazer diversos questionamentos, as pessoas preferem não dialogar ao invés de buscar conhecer o que está sendo passado, até mesmo pra debater.
Nesse sentido, eu busco dialogar com as pessoas individualmente. Eu percebi que as pessoas que passaram a frequentar o centro que participo chegaram após a pandemia. Não foi ninguém que apresentou o Espiritismo pra elas. Elas não vieram com heranças de ranços de outras religiões. São pessoas (pelo menos a maioria) que vieram porque queriam estudar. Com essas existe diálogo, elas até querem saber mais.
Para quem está conhecendo agora esse movimento, acho que vale a pena buscar por grupos onde se fala de espiritismo progressista. O próprio programa Mediunidades, do Saulo Monteiro, o canal Fronteiras do Pensamento Espírita, o Ágora Espírita, e tantos outros. Um canal acaba divulgando outro e outro.
Tem os grupos de WhatsApp do MEP e da CEPABrasil, que as pessoas podem buscar no Instagram e mandar mensagem pedindo pra participar. Até pelo próprio Cavanhaque de Kardec, basta procurar nas redes Instagram, YouTube e TikTok, que vai achar a gente lá.

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