O Instituto Entrevista: Vozes da Fé, com Suzana Leão
- Elton Rodrigues

- 19 de jan.
- 6 min de leitura

1) Fale um pouco sobre quem é você e sobre a sua trajetória até esse momento.
Eu sou Suzana Leão, também conhecida como Suzy Leão no meio espírita. Nasci no Paraná, mas hoje vivo no Rio Grande do Sul. A minha família, no Paraná, sofreu muito durante a ditadura militar. Em 1964, meu pai foi denunciado - sabe-se lá por quem - como se fosse comunista. Ele foi preso e interrogado, ficou alguns dias detido. Não o mataram, mas quebraram o meu pai… quebraram ele por dentro.
Depois disso, nós saímos do Paraná e passamos por vários estados. Eu acho que o medo ficou muito forte nele, como se ele estivesse sempre fugindo. Até que viemos para o Rio Grande do Sul. Meu pai faleceu com 59 anos, então ele realmente sofreu muito com tudo aquilo. Minha mãe também ficou muito abalada para o resto da vida. Ela também já é falecida.
Eu fiz um curso técnico de Química, mas não cheguei a fazer faculdade, porque fui mãe aos 19 anos e isso virou a minha vida de cabeça para baixo. Eu não consegui seguir o curso que eu queria. Trabalhei em várias companhias de exportação aqui onde eu moro - na época, o foco era exportação de calçados. Depois, tive uma loja de roupas e criei minha filha sozinha.
Na época do Fernando Henrique, quando muitas exportadoras daqui da minha cidade quebraram, a minha loja praticamente quebrou também. Na verdade, não quebrou porque eu fechei antes… mas ali eu tive que me reinventar profissionalmente. Eu já estava com quarenta e poucos anos quando comecei a estudar para trabalhar com culinária artística. Desde o ano 2000 eu trabalho com isso, e hoje já estou praticamente me aposentando, mas ainda continuo trabalhando.
Eu tenho um segundo filho, tenho um companheiro, e nós optamos por morar num sítio aqui na minha cidade. E, desde a década de 80, eu já estava envolvida com o Espiritismo. De lá até hoje eu continuo envolvida.
Dentro do Espiritismo, eu já fiz praticamente todas as atividades: palestra, grupo de estudos… eu dirijo um grupo de teatro de adolescentes, enfim, quase todas as tarefas - menos as administrativas. E é isso.
2) Você se considera uma pessoa religiosa? Explique sua perspectiva sobre a sua relação com religião, religiosidade, crenças (ou descrenças) e sobre como você entende o mundo a partir disso.
Eu nasci numa família plurirreligiosa. Meu pai praticava e gostava muito de Umbanda. Minha mãe era católica, mas bem agnóstica - ela não se importava muito com religião. Eu saí de casa muito nova e, no ensino fundamental, estudei em colégio de freiras. Só que, quando a gente está dentro de uma instituição, consegue perceber muito bem as rachaduras e as mazelas. Isso tudo também me fez crescer um pouco agnóstica.
Ao mesmo tempo, eu sempre fui muito voltada para a espiritualidade, muito pela experiência da Umbanda, porque era algo que o meu pai nos levava a vivenciar. Quando eu me aproximei do Espiritismo, o que me encantou foi mais a perspectiva da filosofia do que a perspectiva da religião. Essa ideia de questionar as coisas fundamentais da vida, de fazer perguntas filosóficas mesmo, sempre me atraiu.
Eu me encontrei, especialmente, no movimento de espíritas progressistas e de espíritas laicos, que valorizam muito mais a dimensão filosófica. Isso realmente me completou. Então, em resumo: eu não me considero uma pessoa religiosa e não levo o Espiritismo como religião. Para mim, o Espiritismo é uma filosofia de vida - é a forma como eu encaro a vida e como eu me coloco diante das perguntas sobre a vida.
Eu não sou ateia. Eu creio numa Inteligência Suprema, criadora de todas as coisas. Eu creio nessa Inteligência, mas não levo essa crença de forma religiosa. Para mim, não há necessidade nenhuma disso.
3) Quais valores, princípios ou práticas (individuais e/ou coletivas) são centrais para você hoje? Como isso aparece no seu cotidiano - nas suas decisões, relações e na forma como você lida com dificuldades?
Eu sempre fui uma pessoa militante. Sempre estive envolvida com várias causas e, pra mim, o que dá sentido à vida é justamente militar por aquilo que é fundamental para a humanidade. Eu continuo sendo militante, mas diminuí um pouco aquela militância mais direta, de ir a protestos e estar fisicamente na rua. Isso tem a ver com a minha idade, sim, mas também com uma questão de segurança.
Aqui no Rio Grande do Sul, depois do bolsonarismo, as coisas ficaram muito violentas, muito agressivas. Eu participava de um grupo de militância ambiental e, muitas vezes, nós quase fomos agredidos na rua. Então, por autopreservação, eu parei com esse tipo de atuação mais direta. Mas eu sigo militando de outras formas.
Hoje, por exemplo, eu continuo no meu canal no YouTube - Suzana Leão Espírita Progressista - que é um canal de militância em muitas causas, mas também de espiritualidade, porque eu comento e falo sobre questões espirituais e sobre o Espiritismo a partir de uma perspectiva espírita progressista.
Eu participo de muitos grupos, porque a questão do coletivo sempre fez parte da minha vida. É muito difícil fazer militância sozinha. Na internet existe essa possibilidade, mas, mesmo assim, eu não conseguiria fazer o que faço se não fosse o público que está comigo no canal. Então eu participo de grupos de leitura, participo de grupos feministas, participei e ainda continuo vinculada a esse grupo ambiental - só que hoje a gente se reorganizou em outras formas de atuação, muito pela internet também.
É isso que dá sentido à minha vida: esse trabalho em grupo, esse compromisso coletivo. E, no caso dos espíritas progressistas, é exatamente assim também: é um trabalho basicamente coletivo, onde vários grupos e coletivos se unem por uma causa - que, pra mim, é a causa do humanismo, do progressismo, da defesa dos valores sociais, da civilidade… enfim.
4) Você participa de algum movimento, grupo, instituição ou frente de trabalho ligada à fé/espiritualidade? Conte qual é a sua atuação e o que você busca construir com isso (objetivos, público atendido, ações concretas e impactos percebidos).
Eu participo do movimento de espíritas progressistas, o MEP, que funciona como um grande “guarda-chuva” reunindo vários coletivos. Além disso, eu atuo principalmente através do meu canal no YouTube, que é um espaço voltado para questões do Espiritismo, onde eu converso com muitas pessoas do Brasil inteiro sobre esse tema. Pra mim, isso é uma forma de construção e também uma forma de trabalho espiritual.
Hoje, o lugar onde eu mais executo esse trabalho é justamente no canal. O público que me acompanha gira entre 25 e sessenta e poucos anos — isso aparece nos relatórios e estatísticas que o próprio YouTube me fornece. Eu faço questão de abrir espaço para manifestações dos inscritos, e isso é muito enriquecedor, porque os diálogos, as conversas, as postagens… tudo ali é muito engajado. As pessoas participam de verdade.
Então, esse é o espaço onde eu mais me dedico atualmente para desenvolver e fortalecer uma linha de pensamento progressista dentro do Espiritismo.
5) Quais são os principais desafios ou mal-entendidos que você percebe sobre esse tipo de vivência/atuação? Como você busca dialogar com quem pensa diferente? E, para quem está conhecendo agora, como as pessoas podem acompanhar, participar ou apoiar (canais, projetos, eventos, contato)?
Hoje, o meu canal é o meu palco de atuação, é onde eu atuo com mais força. E o maior desafio, sem dúvida, é lidar com o ódio na internet - os chamados “haters”. A internet é um ambiente muito propício para isso, porque as pessoas ficam anônimas, protegidas atrás de uma tela, e acabam colocando os seus demônios para fora.
No início, eu tentava responder, tentava neutralizar, mas eu percebi que isso é impossível. Chega num ponto em que essas pessoas continuam ali destilando veneno, e logo passam para ofensas pessoais. Isso é muito desagradável, porque as outras pessoas acabam entrando naquela cena grotesca, participando daquele ambiente, e tudo se contamina.
Então, hoje, a minha forma de agir é bem objetiva: eu aviso a pessoa de que, se no próximo comentário ela continuar nesse nível, vai ser banida. Não tem como. Simplesmente não tem como. Eu, aos 62 anos, não tenho mais paciência para receber xingamento de gente anônima na internet. Não consigo mais.
E, quando precisa, eu bloqueio mesmo. O YouTube tem um recurso que “oculta” a pessoa: ela nem sabe que foi bloqueada, mas fica invisível no canal e os comentários dela não aparecem mais.
Para quem quer conhecer o meu trabalho e acompanhar essa caminhada, é só procurar o canal Suzana Leão Espírita Progressista, no YouTube. Dentro dos padrões do YouTube, é um canal pequeno — eu tenho cerca de 22.600 inscritos - mas, para a nossa realidade de espíritas progressistas, é um tamanho bem significativo. A gente sabe que os espíritas progressistas são uma minoria dentro do movimento espírita brasileiro. E o próprio YouTube acaba privilegiando canais que geram tumulto: ele divulga mais canais místicos, canais com mensagens falsas… enquanto os canais que tentam construir uma linha mais crítica, mais humanista, encontram barreiras.
Então o desafio é grande: além de sermos minoria, além de lidarmos com o ódio na internet, ainda precisamos lidar com um algoritmo que muitas vezes nos bloqueia e nos limita. Mesmo assim, é uma tarefa que eu decidi abraçar. E todos e todas estão convidados a participar dessa caminhada.

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