Psicografia, memória motora e reencarnação: um problema para a hipótese da autoria espiritual
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por Vital Cruvinel

A possibilidade de identificar autores espirituais por meio da caligrafia constitui uma das alegações mais interessantes relacionadas à psicografia de Francisco Cândido Xavier. Entre os trabalhos dedicados ao tema, tornou-se especialmente conhecido o estudo do perito em grafoscopia Carlos Augusto Perandréa sobre uma mensagem atribuída a Ilda Mascaro Saullo, falecida em Roma em 1977 e supostamente comunicada por intermédio de Chico Xavier no ano seguinte.
Após comparar a mensagem psicografada com um padrão produzido por Ilda em vida e com a escrita do próprio médium, Perandréa apresentou uma conclusão particularmente forte. Segundo o perito, a mensagem continha, em número e qualidade, características de gênese gráfica suficientes para identificar Ilda Mascaro Saullo como autora. Ao mesmo tempo, constatou, “em menor número”, elementos coincidentes com a escrita de Chico Xavier (PERANDRÉA, 1991).
Essa coexistência de características foi interpretada por Perandréa à luz de fenômenos conhecidos na grafoscopia envolvendo mão guiada e mão auxiliada. Em experiências realizadas pelo próprio autor, duas pessoas participavam fisicamente da produção do movimento e, em determinadas circunstâncias, características de ambas apareciam no produto gráfico. Em uma das experiências de mão auxiliada, Perandréa relata ter obtido “hibridismo em alguns trechos, com características gráficas de ambos os escritores” (PERANDRÉA, 1991).
O objetivo deste artigo não é refazer a perícia de Perandréa, tampouco demonstrar que as semelhanças por ele encontradas decorreram de fraude ou imitação. Propomos uma questão diferente: admitindo provisoriamente que as correspondências gráficas observadas sejam reais e suficientemente incomuns para constituírem uma anomalia, a autoria espiritual decorre delas?
A resposta exige considerar algo que uma análise exclusivamente grafoscópica pode deixar em segundo plano: como uma pessoa produz sua escrita?
A assinatura não está simplesmente “na mão”
A intuição cotidiana pode sugerir que a caligrafia resulta essencialmente do treinamento da mão. A fisiologia do controle motor, entretanto, apresenta um quadro mais complexo.
A escrita é uma habilidade aprendida e altamente automatizada. Com a prática, desenvolvemos representações que permitem executar rapidamente sequências complexas de movimentos sem precisar planejar conscientemente cada traço. Parte dessas representações parece existir em nível relativamente independente do efetor — termo utilizado para designar a parte do corpo empregada na execução da ação.
A escrita constitui um exemplo clássico da chamada equivalência motora. Wing (2000) observa que aspectos característicos do estilo pessoal podem permanecer reconhecíveis quando uma pessoa escreve em escalas ou superfícies diferentes e até quando utiliza outro efetor, como o pé. Isso sugere que parte da organização do movimento é representada em nível mais abstrato do que comandos dirigidos a músculos específicos.
Isso não significa, contudo, que o corpo seja irrelevante.
Castiello e Stelmach (1993), estudando quantitativamente a escrita produzida por diferentes efetores, encontraram evidências de generalização de programas motores, mas também mostraram a importância da prática para essa transferência. Mais recentemente, McCloskey et al. (2025) encontraram diferenças sistemáticas entre a escrita realizada com a mão dominante e a não dominante, colocando em questão versões fortes da hipótese de completa independência do efetor.
Temos, assim, uma combinação importante para nossa discussão:
o grafismo pode apresentar relativa independência do efetor, mas não é completamente independente dele.
Essa constatação inicialmente parece favorecer a hipótese da psicografia. Afinal, se uma pessoa viva consegue preservar aspectos de sua escrita utilizando outro efetor, talvez não seja absurdo, dentro de uma hipótese espiritualista, imaginar que um espírito preserve alguma representação relacionada ao seu antigo grafismo e consiga expressá-la através do corpo de um médium.
Mas justamente essa concessão produz um problema novo.
De um efetor diferente para um sistema motor diferente
Na equivalência motora estudada experimentalmente ocorre, aproximadamente, a seguinte situação:
representação motora de A → sistema nervoso de A → novo efetor de A.
A pessoa pode trocar a mão dominante pela não dominante ou mesmo utilizar outra parte do corpo, mas permanece utilizando o sistema nervoso que adquiriu e consolidou aquela habilidade.
Na hipótese da psicografia precisaríamos admitir algo consideravelmente mais complexo:
representação grafomotora de A → sistema nervoso de B → efetor de B.
Não ocorre apenas uma troca de mão. O suposto autor espiritual estaria utilizando um cérebro, uma musculatura, uma biomecânica e uma história de aprendizagem motora pertencentes a outra pessoa.
No caso analisado por Perandréa, alguma informação capaz de produzir características individualizadoras da escrita de Ilda precisaria atuar através do sistema motor de Chico Xavier — sistema que, por sua vez, possuía décadas de treinamento e automatismos gráficos próprios.
Podemos admitir essa possibilidade como hipótese. Mas ela traz consigo uma pergunta inevitável: o que exatamente teria sobrevivido à morte de Ilda?
Uma memória visual de sua escrita? Uma representação abstrata das formas? Alguma informação funcionalmente equivalente às representações motoras adquiridas em vida?
Não seria adequado exigir que o espírito possuísse literalmente um “programa motor” no sentido neurofisiológico, pois esse conceito pertence à descrição do funcionamento do organismo. Entretanto, se características grafomotoras adquiridas durante a vida sobrevivem à morte e podem ser reproduzidas através de outro organismo, alguma informação capaz de especificá-las precisa, por hipótese, ter sido preservada.
O problema científico passa então a ser determinar o que essa hipótese acrescenta às explicações já conhecidas para a reprodução da escrita de outra pessoa.
O problema da imitação
Suponhamos que o espírito conserve não os comandos motores utilizados em vida, mas alguma representação de sua própria escrita e utilize o sistema motor do médium para reproduzi-la.
Nesse caso, a hipótese espiritual começa a produzir uma consequência graficamente semelhante a um fenômeno perfeitamente conhecido: a imitação.
Um imitador também parte de uma representação da escrita de outra pessoa e procura reproduzi-la através de seu próprio sistema motor. E essa capacidade pode atingir níveis consideráveis. Em um teste cego com 42 examinadores forenses, Dewhurst, Found e Rogers (2008) observaram que imitações produzidas por calígrafos geravam aproximadamente quatro vezes mais conclusões equivocadas do que as produzidas por leigos.
Isso não significa que Chico Xavier tenha imitado deliberadamente a escrita de Ilda. A questão da intenção sequer precisa ser resolvida para o argumento aqui apresentado.
O problema é causal.
Podemos representar as duas hipóteses de maneira simplificada:
Hipótese espiritual: informação grafomotora preservada de Ilda → sistema motor de Chico → características de Ilda + características de Chico.
Hipótese de imitação: representação adquirida da escrita de Ilda → sistema motor de Chico → características de Ilda + características de Chico.

O produto gráfico final pode apresentar semelhanças nas duas situações.
Isso torna particularmente importante a distinção entre aparência gráfica e dinâmica do movimento. Mohammed et al. (2015), utilizando tablet digitalizador, compararam 600 assinaturas genuínas e 2.700 simuladas e encontraram diferenças em parâmetros como duração dos traços, velocidade e pressão. A assinatura, portanto, contém informações sobre sua execução que não se reduzem à forma gráfica deixada no papel.
Além disso, assinaturas não são manifestações perfeitamente invariáveis ao longo da vida. Uma revisão de Linden et al. (2018) mostra que características dinâmicas podem variar em função do envelhecimento e do tempo, bem como de condições físicas e mentais, medicação e outros fatores circunstanciais.
Consequentemente, encontrar no documento características gráficas de Ilda misturadas a características de Chico pode constituir uma observação interessante, mas não determina por si só qual cadeia causal as produziu.
Talvez, portanto, uma conclusão mais conservadora do estudo de Perandréa fosse reconhecer a presença de características atribuíveis a Ilda em um documento fisicamente produzido por Chico Xavier e considerar esse resultado uma anomalia a ser explicada.
A identificação de sua causa exigiria uma etapa adicional.
Uma previsão inesperada: a reencarnação
Há, entretanto, uma maneira interessante de avaliar a hipótese espiritual sem rejeitá-la previamente. Podemos perguntar que outras consequências seriam esperadas caso ela fosse verdadeira.
Aqui a reencarnação oferece um campo de comparação particularmente útil.
Se características grafomotoras individualizadoras pertencem, em alguma medida, ao espírito e sobrevivem à morte a ponto de poderem manifestar-se através do sistema motor de um médium, seria razoável perguntar se parte dessas características poderia também aparecer quando esse mesmo espírito estivesse ligado a um novo organismo.
Não seria necessário esperar uma assinatura idêntica.
A própria literatura sobre equivalência motora fornece razões para esperar modificações quando muda o efetor. Um novo organismo, com outra anatomia, outro sistema nervoso e outra história de aprendizagem, provavelmente introduziria diferenças ainda maiores.
A previsão poderia ser mais modesta:
deveríamos eventualmente encontrar alguma continuidade de características grafomotoras entre uma personalidade anterior e a pessoa que alegadamente a sucede.
Curiosamente, Ian Stevenson chegou bastante perto dessa questão.
Ao estudar crianças que alegavam recordar vidas anteriores, Stevenson interessou-se não apenas pelas memórias declaradas, mas também pela possível continuidade de comportamentos e habilidades. Relatou casos de crianças que teriam demonstrado, sem aprendizagem identificável, habilidades relacionadas a motores marítimos, máquina de costura, execução de instrumento musical, culinária e trabalhos manuais — habilidades que teriam pertencido às respectivas personalidades anteriores (STEVENSON, 1977).
Stevenson investigou também especificamente a preferência manual, isto é, a preferência pelo uso da mão direita ou esquerda. Relatou onze casos nos quais a criança era canhota e a personalidade anterior também teria sido canhota. O próprio autor, entretanto, classificou a evidência como pequena e reconheceu limitações importantes: em dois casos havia testemunhos conflitantes sobre a preferência manual da personalidade anterior; em três, a informação não pôde ser verificada; e em cinco havia parentesco entre as duas personalidades, não permitindo excluir influência genética (STEVENSON, 2001).
A preferência manual é uma característica muito mais simples do que uma assinatura. Ainda assim, essa investigação é importante porque mostra que a possibilidade de alguma continuidade motora entre diferentes encarnações não é uma exigência introduzida externamente por uma crítica materialista. Ela aparece dentro da própria tradição de pesquisa reencarnacionista.
Stevenson chega, inclusive, a admitir uma possibilidade especialmente relevante: aquilo que constituía uma habilidade em uma vida poderia reaparecer na seguinte apenas como uma aptidão. Ou seja, mesmo dentro de sua interpretação reencarnacionista, não seria necessário esperar transferência integral de uma habilidade complexa.
Essa ressalva torna nossa previsão grafomotora mais moderada, mas não a elimina.
Se alguma informação responsável por características individualizadoras da escrita pode sobreviver à morte e atravessar sistemas motores distintos, seria razoável procurar ao menos vestígios ou invariantes dessa organização gráfica em casos considerados particularmente fortes de reencarnação.
Até onde pudemos identificar na literatura consultada, entretanto, a correspondência sistemática de caligrafia ou de características grafomotoras entre supostas personalidades anteriores e atuais não se estabeleceu como uma linha relevante de evidência nas pesquisas de reencarnação.
Essa ausência merece atenção justamente quando colocada ao lado da interpretação proposta para a psicografia.
Uma tensão interna à hipótese espiritual
Podemos agora formular o problema sem pressupor a inexistência do espírito, da mediunidade ou da reencarnação.
Se o novo cérebro e o novo corpo modificam profundamente habilidades adquiridas na personalidade anterior — de modo que uma habilidade possa reaparecer apenas como aptidão — isso oferece uma explicação possível para a ausência de uma escrita semelhante entre duas supostas encarnações.
Mas surge então uma pergunta:
por que o cérebro, o corpo e os automatismos gráficos do médium não produziriam limitações semelhantes na psicografia?
Inversamente, se o espírito consegue preservar características grafomotoras suficientemente específicas para manifestá-las através do sistema motor de um médium, apesar dos automatismos próprios deste último, torna-se razoável perguntar por que nenhuma continuidade comparável deveria ser procurada quando esse espírito passa a dispor de um novo organismo durante uma encarnação inteira.
A tensão pode ser resumida assim:
quanto maior a dependência da escrita em relação ao organismo, mais difícil explicar sua preservação na psicografia; quanto maior sua independência do organismo, mais razoável esperar alguma continuidade grafomotora na reencarnação.
Isso não constitui uma refutação lógica da hipótese espiritual.
Diferentes modelos poderiam ser propostos. Poder-se-ia argumentar, por exemplo, que a relação entre espírito e organismo é diferente durante uma manifestação mediúnica e durante uma encarnação. Ou que determinadas características permanecem latentes na personalidade reencarnada e somente algumas conseguem manifestar-se.
Essas respostas são possíveis.
Mas cada hipótese adicional deveria, idealmente, produzir consequências próprias passíveis de investigação. Caso contrário, existe o risco de que qualquer resultado — preservação, modificação ou desaparecimento da habilidade — possa ser acomodado retrospectivamente pela teoria.
Da comprovação à hipótese experimental
Talvez a principal contribuição do trabalho de Perandréa não esteja, portanto, na alegada comprovação da autoria espiritual, mas na possibilidade de formular novos experimentos.
Tecnologias atuais permitem registrar não apenas a aparência final de uma assinatura, mas também sua dinâmica: trajetória, velocidade, aceleração, pressão, pausas e sequência temporal dos movimentos. Isso permite distinguir melhor a reprodução da forma visual de uma assinatura da reprodução de características de sua execução automatizada.
Em um experimento ideal, médiuns poderiam produzir assinaturas atribuídas a pessoas falecidas sob condições controladas e cegadas. Os resultados seriam comparados não apenas às assinaturas estáticas dessas pessoas, mas, quando disponíveis, a registros dinâmicos produzidos em vida e a imitações realizadas por controles.
A hipótese espiritual passaria então a enfrentar uma questão mais exigente: ela consegue explicar não apenas a semelhança visual, mas também características motoras individualizadas que um imitador não poderia conhecer observando o produto final?
Outra possibilidade deriva diretamente da hipótese reencarnacionista. Em casos considerados particularmente fortes pelos próprios pesquisadores da área, quando existissem amostras manuscritas da personalidade anterior produzidas antes da identificação do caso e inacessíveis à criança, poderiam ser procuradas, de maneira cega, características grafomotoras compartilhadas entre as duas pessoas.
Resultados positivos seriam extraordinariamente interessantes. Resultados negativos repetidos também seriam informativos.
O ponto fundamental é que uma hipótese espiritual pode ser investigada sem ser excluída previamente e sem ser considerada demonstrada antes que hipóteses concorrentes tenham sido adequadamente examinadas.
Nesse sentido, talvez seja mais produtivo reformular a conclusão tradicionalmente atribuída ao caso Perandréa. Em vez de perguntar se a grafoscopia “comprovou” que Ilda escreveu através de Chico Xavier, poderíamos perguntar:
se características grafomotoras de uma pessoa falecida realmente aparecem na escrita de outra pessoa, que mecanismo poderia produzi-las e que outras previsões esse mecanismo gera?
Ao deslocar a questão da confirmação para a previsão, a hipótese espiritual deixa de funcionar apenas como explicação posterior do fenômeno e passa a assumir um risco experimental.
E talvez seja justamente aí que esteja sua maior possibilidade de investigação científica.
Referências
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