Quando Kardec deixa de ser referência e vira limite
por Elton Rodrigues

Há uma diferença importante entre usar a filosofia para investigar uma ideia e usar a filosofia para protegê-la.
O pensamento filosófico começa quando aceitamos a possibilidade de que nossas próprias referências estejam incompletas, historicamente condicionadas ou simplesmente erradas. Se todo o esforço intelectual parte da conclusão de que Kardec necessariamente estava correto e termina reinterpretando qualquer dificuldade para preservar essa conclusão, já não estamos diante de uma investigação aberta.
Estamos diante de uma estratégia de confirmação.
A própria história da filosofia mostra que o conhecimento não avança pela conservação literal de seus autores. Aristóteles foi decisivo para a filosofia ocidental, mas sua física não precisou permanecer intacta para que sua importância fosse reconhecida. Descartes transformou profundamente a filosofia moderna, mas seu dualismo foi discutido, criticado e reformulado por gerações posteriores. Kant não encerrou a epistemologia; tornou-se uma referência a partir da qual novos problemas foram formulados. Hegel influenciou Marx, que ao mesmo tempo herdou, criticou e transformou profundamente sua filosofia da história.
Nenhum desses processos exigiu que o autor anterior estivesse “secretamente certo” em tudo. Assim, um dos sinais de maturidade intelectual é compreender que uma ideia pode ser historicamente fecunda sem ser definitiva.
Na ciência ocorre algo semelhante. Newton não perdeu sua importância porque a relatividade modificou os limites de aplicação de sua mecânica. A física newtoniana continua extremamente útil, mas deixou de ser compreendida como descrição universal e final da natureza. Darwin também não precisou conhecer genética molecular, deriva genética ou biologia do desenvolvimento para que sua contribuição fosse revolucionária. A teoria evolutiva atual é profundamente darwiniana e, ao mesmo tempo, muito maior do que Darwin.
Por que com Kardec deveria funcionar de maneira diferente?
Isso aparece de forma especialmente problemática quando toda crítica científica ao Espiritismo é atribuída ao “materialismo”. A palavra passa a funcionar como explicação para quase tudo. Se uma hipótese espírita não encontra sustentação empírica, culpa-se o paradigma materialista. Se determinado conceito do século XIX perdeu espaço na ciência, afirma-se que ele pertence a outro paradigma. Se os métodos atuais não confirmam determinada afirmação, conclui-se que precisamos de outros métodos.
É claro que a filosofia da ciência discute paradigmas, pressupostos, limites metodológicos e diferentes formas de produção do conhecimento. Também é verdade que nem todo problema científico pode ser investigado exatamente pelos mesmos métodos. Mas nenhuma dessas ideias deveria funcionar como blindagem epistemológica.
Dizer que um objeto exige um método adequado é muito diferente de afirmar que ele exige um método no qual nunca possa ser refutado.
Aliás, transformar “paradigma” numa palavra capaz de salvar qualquer hipótese é um uso bastante pobre da própria filosofia da ciência. Kuhn, Popper, Lakatos, Feyerabend e tantos outros discordaram profundamente entre si justamente porque a epistemologia é um campo de problemas, não um manual pronto para imunizar convicções pessoais.
Também existe uma diferença entre estudar Kardec historicamente e transformar Kardec no limite máximo do pensamento possível sobre o Espiritismo.
Kardec escreveu no século XIX. Dialogou com a ciência, a filosofia, a medicina, a religião e as questões intelectuais de seu tempo. Isso torna sua obra historicamente interessante e, em muitos aspectos, intelectualmente ousada. Mas reconhecer isso não exige imaginar que todas as mudanças posteriores da ciência apenas confirmam, em alguma linguagem escondida, aquilo que ele já havia antecipado.
Um pensamento realmente científico precisa admitir que algumas ideias sobrevivem, outras precisam ser reformuladas e outras podem simplesmente estar erradas.
Um pensamento realmente filosófico precisa permitir que a conclusão seja diferente daquela que desejávamos encontrar.
E compreender isso não é sinal de “confusão”. Confusão é imaginar que amadurecer intelectualmente significa encontrar maneiras cada vez mais sofisticadas de chegar sempre à mesma conclusão. Entender que o conhecimento é provisório, histórico, corrigível e cumulativamente transformado é simplesmente compreender como a construção do conhecimento funciona.
Talvez um dos maiores desafios do Espiritismo contemporâneo seja deixar de utilizar ciência e filosofia apenas como instrumentos de legitimação de uma doutrina previamente aceita.
Se a investigação só é considerada válida quando termina confirmando Kardec, então Kardec deixou de ser objeto de estudo e passou a ser critério de verdade.
E isso se aproxima muito mais da atitude religiosa tradicional do que do espírito crítico que tantas vezes se reivindica em seu nome.


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