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O Instituto Entrevista: Vozes da Fé, com Marcio Saraiva

  • há 17 horas
  • 6 min de leitura



1) Fale um pouco sobre quem é você e sobre a sua trajetória até esse momento.


Meu nome é Marcio Sales Saraiva. Tenho 53 anos, sou casado, pai de quatro filhos, avô de três netos, escritor e torcedor do Vasco da Gama. Fiz graduação em Ciências Sociais na UERJ, nos anos 90, com foco em Ciência Política e Sociologia da Religião. Mais tarde, cursei o básico de Teologia na PUC-Rio, ao longo de dois anos. Depois veio o mestrado em Políticas Públicas, novamente na UERJ e, mais recentemente, concluí o doutorado no Instituto de Psicologia da UFRJ, no EICOS, pesquisando o bolsonarismo como fenômeno psicossocial.


Atuo também na clínica como psicanalista e faço parte do Corpo Freudiano, Escola de Formação em Psicanálise do Rio de Janeiro. E mantenho uma relação antiga e afetiva com o espiritismo kardecista. Confesso que hoje não sei dizer com segurança se ainda me defino como espírita, mas sei que tenho um vínculo forte e permanente com o tema da espiritualidade.


2) Você se considera uma pessoa religiosa? Explique sua perspectiva sobre a sua relação com religião, religiosidade, crenças (ou descrenças) e sobre como você entende o mundo a partir disso.


Durante décadas, a religião foi um elemento fundamental na minha vida. Eu diria que o discurso religioso funcionava como uma amarração interna, capaz de me oferecer um sentido mais ou menos totalizante do mundo. Desde pequeno, as questões religiosas sempre me atraíram. Já na adolescência, envolvi-me com a leitura de livros kardecistas e, curioso em relação ao fenômeno mediúnico, conheci casas espíritas e terreiros de umbanda.


Mais adiante, na época da graduação em Ciências Sociais, comecei a me tornar um pouco mais cético, mas ainda assim profundamente implicado com as questões religiosas. Foi um período muito rico da minha vida, quando ingressei na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Nessa tradição cristã vivi uma experiência de cerca de dez anos, chegando a atuar como ministro leigo. Foi um momento que me marcou profundamente. Até hoje nutro um carinho especial pelo estudo bíblico, pela música sacra, pelas liturgias e pela mensagem radical e revolucionária de um profeta periférico e camponês chamado Jesus de Nazaré.


Com o passar do tempo, minha relação com a religião foi se tornando mais fluida, menos centrada em identidades rígidas ou fidelidades doutrinárias. Fui me deslocando para uma perspectiva mais pós-moderna, pluralista e macroecumênica. Quando a formação em psicanálise começou a se consolidar na minha vida, percebi que o lugar do fenômeno religioso também se deslocava na minha existência.


Ainda sustento a fé em algo para além da matéria e, portanto, uma concepção pós-materialista da realidade. Mas essa fé não é certeza nem salto irracional. É uma aposta simples, humilde e de tonalidade mística. Para alguns, isso talvez nem seja fé. Para mim, é o suficiente.


3) Quais valores, princípios ou práticas (individuais e/ou coletivas) são centrais para você hoje? Como isso aparece no seu cotidiano — nas suas decisões, relações e na forma como você lida com dificuldades?


Na minha vida cotidiana, procuro me orientar por uma ética do desejo. Isso vem, em grande parte, da psicanálise freudiana e lacaniana, que me ensinou a levar a sério o desejo, sem moralizá-lo, mas também sem idealizá-lo. Ao mesmo tempo, nunca abandonei uma inspiração numa ética das virtudes. Entre elas, a caridade ocupa um lugar central para mim — não como algo grandioso ou heroico, mas como uma prática possível no dia a dia.


Entendo a caridade, antes de tudo, como uma virtude microssocial. Ela se expressa em gestos pequenos, concretos e cotidianos: na escuta, no cuidado, na atenção ao outro, no respeito às fragilidades, nas formas simples de não produzir mais sofrimento do que o necessário. Essa caridade miúda, silenciosa, sem espetáculo, sustenta os vínculos e torna a vida em comum um pouco mais habitável.


Mas vejo também uma dimensão macrossocial da caridade. Ela aparece quando nos posicionamos em defesa da democracia, quando combatemos o racismo, a homofobia e todas as formas de opressão, quando lutamos pelos direitos das mulheres, contra a misoginia, pela justiça social, pela paz e pela igualdade. Para mim, tudo isso também é caridade — não no sentido piedoso, mas no sentido ético e político de reduzir a violência e ampliar as condições de vida digna.


Nesse ponto, Gianni Vattimo me marcou profundamente. Ele me ajudou a pensar que, se há algo realmente potente que a tradição judaico-cristã pode oferecer à humanidade hoje, não é um conjunto de dogmas ou verdades absolutas, mas justamente esse compromisso ético, social e político com a caridade: uma caridade sem arrogância, sem pretensão de superioridade moral, frágil, imperfeita, mas insistente. É isso que, no fundo, tento sustentar.


4) Você participa de algum movimento, grupo, instituição ou frente de trabalho ligada à fé/espiritualidade? Conte qual é a sua atuação e o que você busca construir com isso (objetivos, público atendido, ações concretas e impactos percebidos).


Atualmente, coordeno um grupo chamado CEHP (Centro Espírita Herculano Pires), que estuda O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, todas as quintas-feiras à noite. Adotamos uma perspectiva inspirada em Jacques Derrida, buscando uma leitura desconstrutiva do texto kardequiano. Nosso objetivo é extrair dele os elementos mais instigantes, férteis e até subversivos, capazes de dialogar com a contemporaneidade. Não fazemos, portanto, uma leitura sagrada ou idolátrica de Kardec, mas uma leitura viva, crítica e afinada com os debates científicos, filosóficos e sociopolíticos do nosso tempo.


Participo também de um grupo espírita, a Casa de Francisco de Paula, localizada no Engenho de Dentro, um bairro da periferia do Rio de Janeiro. Ali contribuo na área de estudos e na coordenação de um Grupo Terapêutico que funciona aos sábados. Além disso, realizo palestras em algumas casas e instituições espiritualistas, geralmente na região onde vivo.


No ano passado, escrevi o livro “Espiritismo Hoje: uma breve introdução”, lançado pela Editora Comenius, no qual procurei propor uma releitura do espiritismo, destacando o que considero seus elementos mais fundamentais a partir do desenho conceitual oferecido por Kardec. Venho também contribuindo com reflexões no âmbito da CEPA Brasil, com os trabalhos da Universidade Livre Pampédia (coordenada por Dora Incontri) e, mais recentemente, com a formação do Movimento Espírita Progressista (MEP), que se propõe a atuar como uma força contra-hegemônica no campo espírita brasileiro, ainda fortemente marcado por setores conservadores, reacionários ou quietistas.


Apesar disso, para mim, o mais importante continua sendo a vivência cotidiana da espiritualidade. Tenho profundas reservas em relação às grandes instituições e aos vínculos rígidos que elas costumam impor. Por isso, confesso que me sinto mais à vontade em uma espiritualidade de caráter místico, desinstitucionalizada e sem identidades fixas ou fechadas.


5) Quais são os principais desafios ou mal-entendidos que você percebe sobre esse tipo de vivência/atuação? Como você busca dialogar com quem pensa diferente? E, para quem está conhecendo agora, como as pessoas podem acompanhar, participar ou apoiar (canais, projetos, eventos, contato)?


Um dos grandes obstáculos ao alargamento de um pensamento pós-materialista rico — e às vivências místicas ou espirituais — é a praga do fundamentalismo religioso. Alinhado a setores políticos da extrema direita, ele vem ameaçando conquistas importantes alcançadas pelo Ocidente democrático ao longo do processo histórico. Esse movimento compromete também a consolidação de um Estado democrático e verdadeiramente laico, sem subordinação aos interesses de instituições religiosas.


No campo espírita brasileiro, em particular, o crescimento de um certo fundamentalismo espírita, profundamente reacionário e moralista, tem criado obstáculos à própria ampliação do espiritismo. Nas últimas duas décadas, o espiritismo vem se consolidando como uma religiosidade de perfil pequeno-burguês, fortemente vinculada a profissionais liberais, majoritariamente composta por pessoas brancas e, em sua base social, sobretudo por mulheres — ainda que a direção institucional permaneça hegemonicamente masculina, bem ao gosto do machismo e da ideologia do patriarcado.


Soma-se a isso a ausência de renovação dos quadros dirigentes, dos métodos de gestão e de uma concepção de mundo muitas vezes atrasada, reacionária e, por vezes, abertamente anticientífica, o que contraria frontalmente o projeto kardequiano do século XIX. Como consequência, o espiritismo brasileiro vem sofrendo um progressivo esvaziamento em relação à juventude e, se mantiver essa trajetória, corre o risco de se tornar uma religiosidade residual, conservadora, quase arqueológica, cada vez mais subordinada a um discurso cristão de direita.


Esses são alguns dos desafios e mal-entendidos presentes no campo religioso brasileiro e, mais especificamente, no campo espírita. Evidentemente, há muitas outras questões que não há tempo e espaço aqui para desenvolver. Entre elas, destaca-se a sabedoria de conviver com as diferenças — não apenas no plano da sociedade (um dos maiores desafios da democracia contemporânea), mas também no interior de cada campo religioso e de cada tradição espiritual.


No espiritismo, por exemplo, talvez fosse mais justo falarmos em espiritismos, no plural, na medida em que a realidade concreta aponta para múltiplas concepções em circulação no Brasil: algumas mais fiéis ao pensamento kardequiano europeu do século XIX; outras profundamente abrasileiradas, misturadas e sincretizadas com diferentes matrizes religiosas. É dessa diversidade que se constitui o amplo e heterogêneo campo espírita brasileiro.


Aprender a lidar com as diferenças é, portanto, um desafio simultaneamente democrático, religioso e espiritual no momento histórico que atravessamos. Contudo, é fundamental deixar claro que conviver com as diferenças e tolerar divergências não significa se tornar cúmplice do autoritarismo, da fascistização da sociedade ou de tentativas de ruptura da ordem democrática. A verdadeira sabedoria da convivência exige cuidado e vigilância, para que discursos intolerantes e antidemocráticos não se valham do argumento da diferença como estratégia para implodir a própria possibilidade de vida social compartilhada.


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