Quando “creio até demais” vira “não creio bastante”: um pequeno erro de tradução na Revista Espírita
Atualizado: 29 de ago.
por Elton Rodrigues

Em março de 1858, Allan Kardec publicou na Revue Spirite uma evocação atribuída ao Dr. Xavier, médico falecido havia alguns meses e que, segundo Kardec, se dedicara especialmente ao magnetismo. Xavier teria deixado um manuscrito com pretensões de produzir uma revolução na ciência e, pouco antes de morrer, lera O Livro dos Espíritos, manifestando o desejo de entrar em contato com seu autor. A comunicação aborda diferentes assuntos relacionados à alma, ao corpo e à condição do Espírito após a morte. Em determinado momento, Kardec pergunta qual era, em vida, sua opinião sobre a Divindade e o que pensava a respeito dela agora. É justamente nessa breve troca que aparece o problema de tradução examinado neste texto.
Um pequeno detalhe gramatical nessa passagem, porém, produziu uma alteração importante nas traduções brasileiras que examinamos.

KARDEC, Allan. Revue Spirite: journal d’études psychologiques. 1re année, 1858. Paris: Revue Spirite, 1858.
A primeira resposta não apresenta dificuldade: “Eu não acreditava nela”.
A segunda, contudo, é mais interessante.
Em francês, ne... que constitui uma construção restritiva, e não uma negação propriamente dita. Assim, je ne crois que... equivale a “creio apenas...”. Com o advérbio trop (“demais”, “excessivamente”), Je n’y crois que trop assume o sentido de “creio até demais” ou “creio demasiado”. Para expressar “não creio bastante”, o francês esperaria uma construção como Je n’y crois pas assez.
O sentido do diálogo torna-se bastante claro. Quando vivo, Xavier não acreditava na Divindade. Depois da morte, sua situação teria se invertido: agora acreditava - e “até demais”. Há, inclusive, uma espécie de ironia amarga na resposta.
O curioso é observar o que aconteceu nas traduções brasileiras.
Júlio Abreu Filho
A edição da EDICEL de 1964 identifica-se na própria folha de rosto como “traduzida rigorosamente conforme o original por Julio Abreu Filho”. Na passagem em questão, porém, encontramos:
10. P. — Quando vivo, qual a vossa opinião sôbre a Divindade?
R. — Não acreditava nela.
11. P. — E agora?
R. — Não creio bastante.


Figura 1 - Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: EDICEL, 1964.
A diferença é significativa: “creio até demais” tornou-se “não creio bastante”. As duas formulações apontam em direções opostas. No original, trop indica excesso; na tradução brasileira, “não... bastante” indica insuficiência. O contexto pode ainda conferir à resposta um tom de contrariedade ou ironia, mas isso já pertence ao plano da interpretação.
Salvador Gentile
Décadas depois, a tradução de Salvador Gentile, publicada pelo IDE, apresenta a mesma solução:
“Nela não creio bastante.”



Figura 2 - Tradução de Salvador Gentile. Revisão de Elias Barbosa. 2. ed. Araras, SP: Instituto de Difusão Espírita – IDE, 1993.
Novamente, o sentido da construção francesa ne... que trop desaparece.
Evandro Noleto Bezerra
Na tradução de Evandro Noleto Bezerra, publicada pela Federação Espírita Brasileira, encontramos novamente:
“Não creio bastante.”


Figura 3 - Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004.
Temos, portanto, algo bastante curioso: as três traduções brasileiras integrais da Revista Espírita que consultamos reproduzem, nesse ponto, essencialmente a mesma solução.
Versão | Resposta à questão 11 |
Francês | Je n'y crois que trop. |
Júlio Abreu Filho | “Não creio bastante.” |
Salvador Gentile | “Nela não creio bastante.” |
Evandro Noleto Bezerra | “Não creio bastante.” |
Tradução semanticamente adequada | “Creio até demais.” / “Creio demasiado.” |
A comparação com uma tradução espanhola torna a questão ainda mais evidente. Na versão de Enrique Eliseo Baldovino, encontramos: "Creo demasiado."


Figura 4 - Tradução de Enrique Eliseo Baldovino. [S. l.: s. n.], [s. d.].
Ou seja, a tradução espanhola preservou justamente o contraste presente no francês.
O mesmo erro em três traduções brasileiras
A edição de Júlio Abreu Filho é particularmente interessante porque é anterior às traduções de Salvador Gentile e Evandro Noleto Bezerra.
Isso levanta uma questão histórica que merece investigação: as traduções posteriores chegaram independentemente à mesma interpretação ou alguma delas foi influenciada, direta ou indiretamente, pela tradução brasileira anterior?
Por enquanto, não temos elementos suficientes para responder.
Para sustentar uma hipótese de dependência textual, seria necessário comparar sistematicamente um conjunto maior de passagens das diferentes traduções. O que podemos afirmar com segurança é que o mesmo erro aparece nas três traduções brasileiras consultadas.
O interesse desse caso está justamente em sua simplicidade, visto que não é preciso recorrer a interpretações doutrinárias para perceber o problema. No francês, Xavier passa da descrença em vida para uma afirmação enfática após a morte: Je n’y crois que trop, “creio até demais”. Nas traduções brasileiras, porém, a resposta se tornou “não creio bastante”, alterando o contraste que dá sentido ao diálogo.
Por que isso importa?
Esse pequeno exemplo mostra por que o retorno aos textos originais continua sendo importante nos estudos espíritas.
Nenhuma tradução é absolutamente neutra. Entre o texto de partida e o leitor existe sempre o trabalho de um tradutor: suas escolhas vocabulares, sua compreensão da gramática, suas interpretações e, inevitavelmente, a possibilidade de erros.
Isso não diminui o enorme trabalho realizado pelos tradutores das obras de Kardec. Pelo contrário. Reconhecer a existência de erros pontuais é perfeitamente compatível com reconhecer a importância histórica dessas traduções. Mas também significa que uma tradição de leitura pode, eventualmente, reproduzir durante décadas uma formulação que não corresponde exatamente ao texto francês. Nesse caso, a comparação entre as edições nos permitiu observar justamente isso.
E talvez esteja aí uma das razões pelas quais ainda vale a pena retornar aos originais. Não para desqualificar traduções anteriores, mas para compreender melhor o texto, identificar suas variantes e corrigir, quando necessário, pequenos desvios que o tempo acabou tornando familiares.
O papel da inteligência artificial é um aspecto interessante na história desta investigação que não pode ser ignorado. Foi por meio de uma ferramenta de IA que a página Corujismo chegou inicialmente à possibilidade de haver um problema na tradução da expressão francesa. A indicação, contudo, não foi tomada como conclusão. Foi necessário conferir a construção gramatical, consultar pessoas com conhecimento do francês e, finalmente, localizar as diferentes edições para verificar documentalmente o que cada tradutor havia publicado. Nesse caso, a IA funcionou bem como ferramenta de descoberta e levantamento de hipótese, enquanto a confirmação permaneceu dependente da análise humana e das fontes primárias.
Agradecimentos
Esta pequena investigação nasceu de uma construção coletiva.
Agradeço a Salomão Jacob Benchaya e Ricardo A. Terini, e à página Eu, Espírito Imperfeito que gentilmente compartilharam exemplares da edição da EDICEL e permitiram a verificação direta da tradução de Júlio Abreu Filho.
Agradeço também à página Corujismo, no Instagram, que chamou atenção para essa curiosa questão de tradução e colocou o problema em circulação, e a Guilherme Ribeiro, pela ajuda na análise do francês. Agradeço ainda à página Cavanhaque de Kardec, cujo vídeo sobre o tema serviu de motivação para buscarmos as diferentes edições e verificarmos documentalmente o que havia ocorrido.
Às vezes, uma única frase é suficiente para abrir uma pequena investigação histórica.
Neste caso, bastou uma pequena frase:
Je n'y crois que trop.
[ATUALIZAÇÃO - 29.08.2026]
Após a publicação deste artigo, novos documentos chegaram até nós e acrescentaram um elemento importante à história dessa passagem. A página Corujismo, que já havia participado da investigação inicial, localizou no periódico Reformador, da Federação Espírita Brasileira, uma tradução de “O Dr. Xavier” publicada em fevereiro de 1949.
Nessa versão, as questões 10 e 11 aparecem assim:
10. Qual era, quando V. era vivo, sua opinião sobre a Divindade? — Resp. Eu não acreditava n’Ela.
11. Qual é agora sua opinião? — Resp. Creio demais n’Ela.
A descoberta é especialmente importante porque “Creio demais n’Ela” preserva corretamente o sentido do francês Je n’y crois que trop. Portanto, a solução semanticamente adequada dessa passagem não constitui uma correção recente. Ela já havia sido publicada em português pelo menos quinze anos antes da tradução integral de Júlio Abreu Filho, de 1964.



Figura 5 - Reformador, da Federação Espírita Brasileira, uma tradução de “O Dr. Xavier” publicada em fevereiro de 1949
A descoberta também permitiu avançar na identificação do provável tradutor. Em um relatório publicado em Reformador em agosto de 1947, a própria Federação Espírita Brasileira informava que vinha reunindo e publicando, desde outubro de 1946, artigos de Allan Kardec originalmente aparecidos na Revue Spirite. O documento registra expressamente:
“As traduções vêm sendo feitas pelo companheiro Ismael Gomes Braga...”
O mesmo relatório informa ainda que esses artigos vinham sendo preparados com a intenção de serem posteriormente reunidos em volume.


Figura 6 - Reformador, da Federação Espírita Brasileira, agosto de 1947
Como “O Dr. Xavier” foi publicado em 1949 no contexto dessa iniciativa editorial, há bons indícios de que sua tradução também tenha sido realizada por Ismael Gomes Braga. Ainda assim, enquanto não encontrarmos uma indicação nominal do tradutor junto ao próprio texto de fevereiro de 1949 ou outro documento que estabeleça essa autoria diretamente, é mais prudente tratá-la como provável, e não como definitivamente comprovada.


Figura 7 - Reformador, da Federação Espírita Brasileira, março de 1976. O trecho destacado indica que a tradução da Revue Spirite, foi realizada por Ismael Gomes Braga.
O novo documento modifica de maneira interessante a reconstrução que havíamos apresentado inicialmente. A tradução de Júlio Abreu Filho não foi a primeira versão brasileira conhecida dessa passagem. Antes dela, já circulava uma tradução que compreendia corretamente Je n’y crois que trop.
Isso torna ainda mais curioso o fato de que, posteriormente, as três traduções integrais examinadas neste artigo apresentem “não creio bastante” — ou variante equivalente.
A sequência conhecida até agora fica assim:
Data | Versão | Resposta à questão 11 |
1858 | Francês | Je n'y crois que trop. |
1949 | Ismael Gomes Braga - REFORMADOR | Creio demais n’Ela. |
1964 | Júlio Abreu Filho - EDICEL | “Não creio bastante.” |
1993 | Salvador Gentile - IDE | “Nela não creio bastante.” |
2004 | Evandro Noleto Bezerra - FEB | “Não creio bastante.” |
A presença da tradução correta em Reformador acrescenta também uma questão editorial importante. Não sabemos se Júlio Abreu Filho, Salvador Gentile ou Evandro Noleto Bezerra conheceram ou consultaram aquela tradução anterior, e não seria legítimo presumir que o fizeram. No caso da edição publicada pela FEB, contudo, a situação merece atenção especial, pois uma solução correta para a passagem já havia sido publicada décadas antes pela própria instituição.
Não se trata de afirmar que Evandro Noleto necessariamente teve acesso a esse material. Trata-se de uma questão metodológica mais ampla. Em uma nova tradução integral de uma obra histórica, especialmente quando realizada por uma instituição que conserva uma longa tradição editorial sobre aquele mesmo corpus, a consulta às traduções anteriores constitui um procedimento desejável de crítica e cotejo textual. Não para reproduzi-las, mas justamente para identificar escolhas anteriores, divergências, acertos e possíveis problemas.
Nesse sentido, é particularmente curioso que a tradução da FEB publicada décadas depois apresente “Não creio bastante”, enquanto uma publicação da própria FEB, em 1949, havia registrado corretamente “Creio demais n’Ela”. O contraste não permite reconstruir, por si só, o caminho pelo qual o erro surgiu ou foi reproduzido, mas amplia significativamente o problema histórico.
Uma investigação anterior sobre o Dr. Xavier
Depois da publicação do nosso texto, também tomamos conhecimento de trabalhos anteriores de Vital Cruvinel, publicados em 2008 e 2009 no blog Decodificando o Livro dos Espíritos. Embora Cruvinel não estivesse investigando especificamente a expressão Je n’y crois que trop, seus textos tratam justamente da comunicação do Dr. Xavier e de problemas relacionados às diferentes formas pelas quais textos da Revue Spirite chegaram aos leitores.
Em “Xavier, de corpo e alma”, Cruvinel chama atenção para a importância dessa comunicação na compreensão de questões desenvolvidas posteriormente por Kardec. Já em “Indo aos originais”, compara diferentes exemplares da Revue Spirite e observa a existência de elementos editoriais que não poderiam pertencer à publicação original de 1858, por fazerem referência a acontecimentos posteriores. Esse trabalho anterior reforça um aspecto metodológico que passou a ocupar lugar ainda mais importante nesta investigação. Em trabalhos histórico-textuais, é preciso perguntar qual exemplar está sendo consultado, de que período ele é e se sofreu intervenções editoriais posteriores.
No caso específico de Je n’y crois que trop, não encontramos até agora variação que altere a questão discutida neste artigo, isto é, a formulação francesa confirma o sentido de “creio demais”. Mas os trabalhos de Cruvinel mostram que a crítica das traduções deve caminhar junto com a crítica dos próprios testemunhos textuais utilizados como fonte.
O que a descoberta de 1949 muda
A conclusão inicial do artigo, onde as três traduções integrais brasileiras examinadas apresentam uma formulação que inverte o sentido da expressão francesa, permanece válida. O novo documento, porém, acrescenta um dado decisivo. Já havia uma tradução correta da passagem analisada em 1949.
A história, portanto, não parece ser simplesmente a de um erro ocorrido na primeira tradução brasileira e posteriormente repetido. Ela é mais complexa. Uma tradução correta circulou primeiro; depois, nas traduções integrais que examinamos, consolidou-se uma solução semanticamente inadequada. E ainda não sabemos por quê.
Responder a essa pergunta exigirá comparar de maneira mais ampla as diferentes traduções da Revista Espírita, buscando verificar se existem relações de dependência textual, reaproveitamento de soluções anteriores ou simplesmente coincidências entre tradutores.
O pequeno Je n’y crois que trop, portanto, continua produzindo perguntas.
Agradecimento pela atualização
Após a publicação deste artigo, a página Corujismo continuou a pesquisa e localizou no acervo histórico de Reformador a tradução de 1949 apresentada acima, além dos documentos que permitiram relacioná-la ao projeto de traduções conduzido pela FEB e, provavelmente, a Ismael Gomes Braga. Agradeço novamente pela pesquisa e pelo compartilhamento do material.
Agradeço também aos leitores e pesquisadores que, depois da circulação do artigo, trouxeram novas fontes e referências. Pesquisas dessa natureza dificilmente se encerram na primeira publicação. Elas crescem à medida que novos documentos aparecem, hipóteses são revistas e outras pessoas contribuem para ampliar o quadro disponível. A atualização, nesse caso, não corrige apenas um detalhe do artigo original. Ela torna a história mais interessante.
Referências
CRUVINEL, Vital. Indo aos originais. Decodificando o Livro dos Espíritos, 2009. Disponível em: https://decodificando-livro-espiritos.blogspot.com/2009/01/indo-aos-originais.html. Acesso em: 29 ago. 2026.
CRUVINEL, Vital. Xavier, de corpo e alma. Decodificando o Livro dos Espíritos, 2008. Disponível em: https://decodificando-livro-espiritos.blogspot.com/2008/12/xavier-de-corpo-e-alma.html. Acesso em: 29 ago. 2026.
FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. O Dr. Xavier. Reformador, Rio de Janeiro, fev. 1949, p. 30.
FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Relatório. Reformador, Rio de Janeiro, ago. 1947, p. 193.
KARDEC, Allan. Revue Spirite: journal d’études psychologiques. 1re année, 1858. Paris: Revue Spirite, 1858.
KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: primeiro ano – 1858. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: EDICEL, 1964.
KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: 1858. Tradução de Salvador Gentile. Revisão de Elias Barbosa. 2. ed. Araras, SP: Instituto de Difusão Espírita – IDE, 1993.
KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: ano primeiro – 1858. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004.
KARDEC, Allan. Revista Espírita: periódico de estudios psicológicos: 1858. Tradução de Enrique Eliseo Baldovino. [S. l.: s. n.], [s. d.].



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