Quando “creio até demais” vira “não creio bastante”: um pequeno erro de tradução na Revista Espírita
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por Elton Rodrigues

Em março de 1858, Allan Kardec publicou na Revue Spirite uma evocação atribuída ao Dr. Xavier, médico falecido havia alguns meses e que, segundo Kardec, se dedicara especialmente ao magnetismo. Xavier teria deixado um manuscrito com pretensões de produzir uma revolução na ciência e, pouco antes de morrer, lera O Livro dos Espíritos, manifestando o desejo de entrar em contato com seu autor. A comunicação aborda diferentes assuntos relacionados à alma, ao corpo e à condição do Espírito após a morte. Em determinado momento, Kardec pergunta qual era, em vida, sua opinião sobre a Divindade e o que pensava a respeito dela agora. É justamente nessa breve troca que aparece o problema de tradução examinado neste texto.
Um pequeno detalhe gramatical nessa passagem, porém, produziu uma alteração importante nas traduções brasileiras que examinamos.

KARDEC, Allan. Revue Spirite: journal d’études psychologiques. 1re année, 1858. Paris: Revue Spirite, 1858.
A primeira resposta não apresenta dificuldade: “Eu não acreditava nela”.
A segunda, contudo, é mais interessante.
Em francês, ne... que constitui uma construção restritiva, e não uma negação propriamente dita. Assim, je ne crois que... equivale a “creio apenas...”. Com o advérbio trop (“demais”, “excessivamente”), Je n’y crois que trop assume o sentido de “creio até demais” ou “creio demasiado”. Para expressar “não creio bastante”, o francês esperaria uma construção como Je n’y crois pas assez.
O sentido do diálogo torna-se bastante claro. Quando vivo, Xavier não acreditava na Divindade. Depois da morte, sua situação teria se invertido: agora acreditava - e “até demais”. Há, inclusive, uma espécie de ironia amarga na resposta.
O curioso é observar o que aconteceu nas traduções brasileiras.
Júlio Abreu Filho
A edição da EDICEL de 1964 identifica-se na própria folha de rosto como “traduzida rigorosamente conforme o original por Julio Abreu Filho”. Na passagem em questão, porém, encontramos:
10. P. — Quando vivo, qual a vossa opinião sôbre a Divindade?
R. — Não acreditava nela.
11. P. — E agora?
R. — Não creio bastante.


Figura 1 - Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: EDICEL, 1964.
A diferença é significativa: “creio até demais” tornou-se “não creio bastante”. As duas formulações apontam em direções opostas. No original, trop indica excesso; na tradução brasileira, “não... bastante” indica insuficiência. O contexto pode ainda conferir à resposta um tom de contrariedade ou ironia, mas isso já pertence ao plano da interpretação.
Salvador Gentile
Décadas depois, a tradução de Salvador Gentile, publicada pelo IDE, apresenta a mesma solução:
“Nela não creio bastante.”



Figura 2 - Tradução de Salvador Gentile. Revisão de Elias Barbosa. 2. ed. Araras, SP: Instituto de Difusão Espírita – IDE, 1993.
Novamente, o sentido da construção francesa ne... que trop desaparece.
Evandro Noleto Bezerra
Na tradução de Evandro Noleto Bezerra, publicada pela Federação Espírita Brasileira, encontramos novamente:
“Não creio bastante.”


Figura 3 - Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004.
Temos, portanto, algo bastante curioso: as três traduções brasileiras integrais da Revista Espírita que consultamos reproduzem, nesse ponto, essencialmente a mesma solução.
Versão | Resposta à questão 11 |
Francês | Je n'y crois que trop. |
Júlio Abreu Filho | “Não creio bastante.” |
Salvador Gentile | “Nela não creio bastante.” |
Evandro Noleto Bezerra | “Não creio bastante.” |
Tradução semanticamente adequada | “Creio até demais.” / “Creio demasiado.” |
A comparação com uma tradução espanhola torna a questão ainda mais evidente. Na versão de Enrique Eliseo Baldovino, encontramos: "Creo demasiado."


Figura 4 - Tradução de Enrique Eliseo Baldovino. [S. l.: s. n.], [s. d.].
Ou seja, a tradução espanhola preservou justamente o contraste presente no francês.
O mesmo erro em três traduções brasileiras
A edição de Júlio Abreu Filho é particularmente interessante porque é anterior às traduções de Salvador Gentile e Evandro Noleto Bezerra.
Isso levanta uma questão histórica que merece investigação: as traduções posteriores chegaram independentemente à mesma interpretação ou alguma delas foi influenciada, direta ou indiretamente, pela tradução brasileira anterior?
Por enquanto, não temos elementos suficientes para responder.
Para sustentar uma hipótese de dependência textual, seria necessário comparar sistematicamente um conjunto maior de passagens das diferentes traduções. O que podemos afirmar com segurança é que o mesmo erro aparece nas três traduções brasileiras consultadas.
O interesse desse caso está justamente em sua simplicidade, visto que não é preciso recorrer a interpretações doutrinárias para perceber o problema. No francês, Xavier passa da descrença em vida para uma afirmação enfática após a morte: Je n’y crois que trop, “creio até demais”. Nas traduções brasileiras, porém, a resposta se tornou “não creio bastante”, alterando o contraste que dá sentido ao diálogo.
Por que isso importa?
Esse pequeno exemplo mostra por que o retorno aos textos originais continua sendo importante nos estudos espíritas.
Nenhuma tradução é absolutamente neutra. Entre o texto de partida e o leitor existe sempre o trabalho de um tradutor: suas escolhas vocabulares, sua compreensão da gramática, suas interpretações e, inevitavelmente, a possibilidade de erros.
Isso não diminui o enorme trabalho realizado pelos tradutores das obras de Kardec. Pelo contrário. Reconhecer a existência de erros pontuais é perfeitamente compatível com reconhecer a importância histórica dessas traduções. Mas também significa que uma tradição de leitura pode, eventualmente, reproduzir durante décadas uma formulação que não corresponde exatamente ao texto francês. Nesse caso, a comparação entre as edições nos permitiu observar justamente isso.
E talvez esteja aí uma das razões pelas quais ainda vale a pena retornar aos originais. Não para desqualificar traduções anteriores, mas para compreender melhor o texto, identificar suas variantes e corrigir, quando necessário, pequenos desvios que o tempo acabou tornando familiares.
O papel da inteligência artificial é um aspecto interessante na história desta investigação que não pode ser ignorado. Foi por meio de uma ferramenta de IA que a página Corujismo chegou inicialmente à possibilidade de haver um problema na tradução da expressão francesa. A indicação, contudo, não foi tomada como conclusão. Foi necessário conferir a construção gramatical, consultar pessoas com conhecimento do francês e, finalmente, localizar as diferentes edições para verificar documentalmente o que cada tradutor havia publicado. Nesse caso, a IA funcionou bem como ferramenta de descoberta e levantamento de hipótese, enquanto a confirmação permaneceu dependente da análise humana e das fontes primárias.
Agradecimentos
Esta pequena investigação nasceu de uma construção coletiva.
Agradeço a Salomão Jacob Benchaya e Ricardo A. Terini, e à página Eu, Espírito Imperfeito que gentilmente compartilharam exemplares da edição da EDICEL e permitiram a verificação direta da tradução de Júlio Abreu Filho.
Agradeço também à página Corujismo, no Instagram, que chamou atenção para essa curiosa questão de tradução e colocou o problema em circulação, e a Guilherme Ribeiro, pela ajuda na análise do francês. Agradeço ainda à página Cavanhaque de Kardec, cujo vídeo sobre o tema serviu de motivação para buscarmos as diferentes edições e verificarmos documentalmente o que havia ocorrido.
Às vezes, uma única frase é suficiente para abrir uma pequena investigação histórica.
Neste caso, bastou uma pequena frase:
Je n'y crois que trop.
Referências
KARDEC, Allan. Revue Spirite: journal d’études psychologiques. 1re année, 1858. Paris: Revue Spirite, 1858.
KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: primeiro ano – 1858. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: EDICEL, 1964.
KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: 1858. Tradução de Salvador Gentile. Revisão de Elias Barbosa. 2. ed. Araras, SP: Instituto de Difusão Espírita – IDE, 1993.
KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: ano primeiro – 1858. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004.
KARDEC, Allan. Revista Espírita: periódico de estudios psicológicos: 1858. Tradução de Enrique Eliseo Baldovino. [S. l.: s. n.], [s. d.].



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