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De onde veio o “tríplice aspecto” do Espiritismo?

há 1 dia
10 min de leitura

por Elton Rodrigues



É bastante comum encontrar, em palestras, cursos e obras de divulgação, a afirmação de que o Espiritismo possui um tríplice aspecto formado por ciência, filosofia e religião. A fórmula se tornou tão familiar que frequentemente aparece como parte da própria definição da doutrina, muitas vezes associada diretamente a Allan Kardec. Quando retornamos às fontes do século XIX, porém, essa organização não aparece formulada dessa maneira.


Kardec escreveu extensamente sobre ciência, filosofia, moral e religião e estabeleceu relações entre esses campos em diferentes momentos de sua obra. Por outro lado, não encontramos, em seus textos, a expressão “tríplice aspecto” empregada para organizar o Espiritismo em três dimensões: ciência, filosofia e religião.


A forma hoje consagrada parece resultar de um processo posterior de interpretação e sistematização. Sua história passa de maneira particularmente importante pelo movimento espírita brasileiro do início do século XX. Compreender esse percurso permite distinguir aquilo que efetivamente se encontra nos escritos kardecianos das categorias construídas posteriormente para organizá-los.


Como Kardec definia o Espiritismo?


Uma das definições mais conhecidas aparece em Qu’est-ce que le Spiritisme?, publicado originalmente em 1859. Logo no preâmbulo, Kardec escreve:


Le Spiritisme est à la fois une science d’observation et une doctrine philosophique.

Em seguida, explica que, como ciência prática, o Espiritismo trataria das relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, compreenderia as consequências morais decorrentes dessas relações. Pouco depois oferece outra formulação, apresentando-o como uma ciência que trata da natureza, da origem e do destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.


Kardec associa de maneira explícita uma dimensão investigativa, entendida como ciência de observação, a uma dimensão filosófica. As consequências morais aparecem vinculadas à reflexão produzida a partir dessas relações. A classificação filosófica também aparece na apresentação de "O Livro dos Espíritos". A partir da segunda edição, publicada em 1860, a folha de rosto traz a expressão Philosophie spiritualiste, ou “Filosofia espiritualista”, acima do título da obra.


Em outros textos, Kardec insiste na proximidade entre seu método e aquele que atribuía às ciências de observação. Ao discutir os caracteres da revelação espírita, afirma que o Espiritismo observaria fatos, compararia resultados, investigaria efeitos e procuraria remontar às causas. Por isso considerava apropriado classificá-lo como uma ciência de observação.


Essas afirmações precisam ser compreendidas em seu contexto histórico. O uso da palavra “ciência” no século XIX não corresponde automaticamente aos critérios empregados pelas ciências contemporâneas. Para compreender o pensamento de Kardec, entretanto, o ponto central é reconhecer que ele atribuía ao Espiritismo uma dimensão investigativa e outra filosófica, articuladas de maneira recorrente em seus textos. Já a religião, aparece em um contexto mais complexo.


O problema da palavra “religião”


Em dezembro de 1868, a Revue Spirite publicou o discurso pronunciado na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas em 1º de novembro daquele ano, sob o título Le Spiritisme est-il une religion?.


Kardec reconhece que, em determinado sentido filosófico, o Espiritismo poderia ser chamado de religião. O argumento parte da ideia de vínculo. Para ele, uma religião poderia ser entendida como um laço moral entre pessoas unidas por princípios e sentimentos comuns. Sob essa acepção, admitia a aplicação do termo ao Espiritismo. Ao mesmo tempo, demonstrava forte reserva diante do significado social e institucional que a palavra carregava.


No uso corrente, religião estava associada a cultos, formas exteriores, hierarquias, cerimônias e princípios absolutos de fé. Kardec receava que apresentar o Espiritismo simplesmente como religião levasse o público a enquadrá-lo nesse modelo institucional. Por isso, ao final de sua argumentação, optava por apresentá-lo como uma “doutrina filosófica e moral”. Temos, assim, uma terminologia menos rígida do que a formulação do tríplice aspecto costuma sugerir.


Em determinados textos, Kardec enfatiza ciência e filosofia. Em outros, filosofia e moral. Também admite a palavra religião quando empregada em uma acepção específica, embora evite utilizá-la como classificação institucional do Espiritismo. Esse quadro torna historicamente problemática a afirmação de que Kardec teria organizado sua doutrina em três aspectos claramente delimitados, ciência, filosofia e religião.


Quando aparece o “tríplice aspecto”?


Uma investigação particularmente importante sobre esse problema foi realizada por Augusto César Dias de Araújo, em sua tese de doutorado "O espiritismo, 'esta loucura do século XIX': ciência, filosofia e religião nos escritos de Allan Kardec", defendida na Universidade Federal de Juiz de Fora. Ao estudar historicamente a associação entre essas três categorias, Araújo identifica no movimento espírita brasileiro uma ocorrência decisiva da expressão “tríplice aspecto”.


Em 1929, a Cruzada Espiritualista publicou no Rio de Janeiro o livro "Religiões comparadas: oito syntheses doutrinárias". A obra reunia exposições sobre diferentes tradições religiosas, e Carlos Imbassahy ficou responsável pelo capítulo dedicado ao Espiritismo. É nesse texto que aparece uma formulação particularmente significativa. Imbassahy afirma que seria necessário encarar o Espiritismo sob seu “tríplice aspecto”, formado pela ciência, pela filosofia e pela religião. Acrescenta ainda que afastar qualquer uma dessas dimensões significaria mutilar sua compreensão. A formulação é muito próxima daquela que se tornaria comum no movimento espírita ao longo do século XX.


A prudência histórica impede afirmar, sem novas pesquisas documentais, que Imbassahy tenha sido necessariamente o primeiro autor a utilizar a expressão. Uma ocorrência anterior pode existir em jornais, revistas, conferências ou livros ainda pouco examinados. Mesmo assim, o registro de 1929 constitui um marco documental importante. Ele demonstra que, naquele momento, a organização do Espiritismo em três aspectos já estava sendo apresentada de maneira explícita no Brasil.


Há uma distância considerável entre essa formulação e as definições de Kardec publicadas a partir de 1859. Essa diferença cronológica ajuda a perceber que a sistematização em três aspectos pertence a um momento posterior da história do Espiritismo.


A consolidação da fórmula


Nos anos seguintes, a ideia dos três aspectos passaria a circular de maneira cada vez mais ampla.


Um momento particularmente significativo ocorre com a publicação de "O Consolador", psicografado por Francisco Cândido Xavier e atribuído ao espírito Emmanuel. O livro foi lançado pela Federação Espírita Brasileira em 1940.


Na questão 260, a própria pergunta já parte da existência de “três aspectos diferentes: científico, filosófico e religioso”. A formulação aparece, portanto, como algo previamente conhecido pelos interlocutores.


A resposta atribuída a Emmanuel aceita essa divisão e desenvolve uma imagem bastante conhecida. O Espiritismo seria representado por um triângulo de forças espirituais, no qual ciência e filosofia se ligariam à Terra, enquanto a religião estabeleceria a ligação com o plano superior.


Quando "O Consolador" foi publicado, a associação entre os três aspectos já circulava anteriormente, como demonstra o registro de Carlos Imbassahy, publicado onze anos antes. A ampla circulação do livro dentro do espiritismo brasileiro contribuiu para reforçar e difundir essa estrutura conceitual. A metáfora do triângulo oferecia ainda uma representação simples e de fácil transmissão, adequada a cursos, palestras e obras de divulgação.


Posteriormente, outros autores também passariam a tratar ciência, filosofia e religião como dimensões constitutivas do Espiritismo. Entre eles está José Herculano Pires, que desenvolveu amplamente a ideia da natureza tríplice da doutrina. Em seus textos, as três dimensões aparecem integradas e relacionadas ao próprio desenvolvimento histórico do conhecimento humano.


Ao longo do século XX, a classificação ganhou espaço suficiente para se tornar uma das maneiras mais conhecidas de apresentar o Espiritismo.


Por que essa fórmula se tornou tão importante?


Talvez a questão mais interessante esteja em compreender por que ela alcançou tanta força no movimento espírita.


Desde o século XIX, o Espiritismo precisou lidar com diferentes formas de definir a própria identidade. Kardec reivindicava uma investigação dos fenômenos, elaborava consequências filosóficas a partir deles, discutia problemas morais e mantinha uma relação complexa com o vocabulário religioso. Esses campos conviviam em sua obra sem aparecer organizados segundo uma divisão fixa em três partes. A fórmula do tríplice aspecto ofereceu uma solução particularmente eficiente para essa diversidade.


Ao reunir ciência, filosofia e religião em uma única estrutura, tornou possível apresentar o Espiritismo como um sistema capaz de ocupar simultaneamente diferentes espaços. A investigação dos fenômenos encontrava lugar na ciência, as questões sobre a realidade, o ser humano e o destino eram associadas à filosofia, enquanto a dimensão moral e espiritual podia ser inserida no campo religioso. Essa organização tinha uma evidente força pedagógica. Em poucas palavras, permitia explicar uma doutrina que historicamente reivindicava uma identidade difícil de enquadrar em apenas uma categoria. Talvez, tal característica pode ajudar a compreender sua permanência.


Uma classificação não precisa estar presente desde a origem de uma tradição para se tornar importante dentro dela. Ao longo do tempo, determinadas interpretações podem funcionar como instrumentos de organização, fornecer uma linguagem comum e influenciar a maneira pela qual um grupo passa a compreender a própria história. O caso do tríplice aspecto revela justamente esse movimento.


A pesquisa histórica permite reconhecer que ciência, filosofia, moral e religião ocupam lugares importantes nos escritos de Kardec, enquanto a organização desses elementos na fórmula “ciência, filosofia e religião” pertence a um processo posterior de sistematização. O registro de Carlos Imbassahy, em 1929, constitui até o momento um marco importante dessa trajetória no Brasil, que seria reforçada nas décadas seguintes por obras de grande circulação no movimento espírita.


Mais do que corrigir uma atribuição, esse percurso chama atenção para uma questão frequentemente esquecida. O vocabulário pelo qual uma tradição se explica também se transforma ao longo do tempo.


Estudar o “tríplice aspecto”, portanto, ajuda a compreender não apenas como o Espiritismo foi definido por Kardec, mas também como gerações posteriores procuraram responder a uma pergunta que continuou aberta depois dele: afinal, que tipo de conhecimento o Espiritismo pretende ser?


Adendo – novas informações sobre a formação do “tríplice aspecto”


Após a publicação deste texto, recebemos de Herivelto Carvalho novas informações e referências que permitem ampliar a reconstrução histórica apresentada no artigo. Os dados são particularmente relevantes porque indicam que a organização do Espiritismo em ciência, filosofia e religião circulava no Brasil antes da formulação de Carlos Imbassahy, em 1929.


Uma dessas referências aparece no periódico francês Le Progrès Spirite. A revista comenta um artigo publicado em A Nova Revelação, órgão de um centro espírita de São Paulo, e identifica seu autor como A. P. Caldas Junior. Como A Nova Revelação circulou entre 1904 e 1908, é possível situar essa formulação nesse intervalo, embora ainda não tenha sido localizado o fascículo original que permita determinar o ano exato. Segundo o resumo apresentado aos leitores franceses, Caldas Junior defendia que o Espiritismo deveria ser considerado dividido em três partes: ciência, religião e filosofia.


O resumo permite perceber que se tratava de uma classificação relativamente desenvolvida. A ciência teria como característica essencial a certeza; a religião estaria associada à fé fundada na razão e aos sentimentos; e a filosofia teria por objetivo estudar os primeiros princípios e as consequências da ciência e da religião. Aplicando esse esquema ao Espiritismo, Caldas Junior distinguia uma Ciência do Espiritismo, uma Religião do Espiritismo e uma Filosofia do Espiritismo, cabendo a esta última sintetizar as duas anteriores. Assim, a documentação atualmente disponível permite afirmar que essa concepção tripartida já circulava no espiritismo brasileiro entre 1904 e 1908, pelo menos duas décadas antes da formulação de Imbassahy em 1929.


Outro aspecto merece atenção. Le Progrès Spirite não apresenta essa concepção para refutá-la. O periódico declara expressamente que não pretendia discutir a proposta de Caldas Junior, mas apenas mostrar aos espíritas franceses a “ordem de ideias” em que trabalhavam os espíritas estrangeiros, para que pudessem dela tirar proveito, caso considerassem pertinente.


Esse documento obriga a tornar mais precisa uma afirmação feita anteriormente neste artigo. Carlos Imbassahy continua sendo uma referência fundamental para a história da expressão “tríplice aspecto”, empregada explicitamente por ele em 1929, mas a concepção de uma estrutura tripartida do Espiritismo é anterior. A referência a Caldas Junior demonstra que ciência, religião e filosofia já eram apresentadas conjuntamente como partes do Espiritismo nas primeiras décadas do século XX.


Herivelto Carvalho também chamou nossa atenção para a participação de Antônio Wantuil de Freitas nesse processo. Em conferências realizadas antes da publicação de O Consolador, Wantuil defendia explicitamente as três caracterizações. Em texto posteriormente publicado no livro "Ciência Religião Fanatismo", de 1938, encontramos as afirmações de que o Espiritismo “é ciência”, “é filosofia” e “é religião”. A obra foi publicada pela Federação Espírita Brasileira e é atribuída a Wantuil sob o pseudônimo Minimus.


Segundo a informação fornecida por Herivelto, essa classificação também teria sido apresentada por Wantuil em uma conferência realizada na sede da FEB em 26 de março de 1937. A referência é bastante significativa para a cronologia aqui discutida, embora ainda estejamos procurando a documentação primária que permita vincular com segurança o texto preservado em "Ciência Religião Fanatismo" a essa data específica.


Com essas novas fontes, a trajetória histórica do chamado “tríplice aspecto” torna-se mais complexa. Em vez de uma formulação surgida isoladamente em 1929, começamos a enxergar um processo de elaboração e circulação de ideias no espiritismo brasileiro. A classificação em ciência, filosofia e religião já estava sendo discutida anteriormente; Imbassahy lhe daria uma formulação explícita sob a denominação de “tríplice aspecto”; Wantuil de Freitas voltaria a defender a caracterização trina na década de 1930; e, em 1940, O Consolador contribuiria para sua ampla difusão no movimento espírita.


Esses novos documentos reforçam também uma das questões centrais do artigo. A história de uma ideia nem sempre coincide com a história da expressão pela qual ela se tornou conhecida. No caso do “tríplice aspecto”, será necessário continuar recuando nas fontes para compreender quando surgiu a classificação, quando apareceu essa denominação específica e por quais caminhos ela se consolidou no vocabulário espírita brasileiro.


Agradecemos a Herivelto Carvalho pelo envio das informações e referências que motivaram este adendo e permitiram ampliar a investigação.


Referências


ARAÚJO, Augusto César Dias de. *O espiritismo, “esta loucura do século XIX”: ciência, filosofia e religião nos escritos de Allan Kardec*. Tese de doutorado. Universidade Federal de Juiz de Fora.


CRUZADA ESPIRITUALISTA. *Religiões comparadas: oito syntheses doutrinárias*. Rio de Janeiro: Gráfica de Roland Rohe, 1929. Capítulo sobre Espiritismo de Carlos Imbassahy.


KARDEC, Allan. *Le Livre des Esprits*. 2. ed. Paris: Didier et Cie., 1860.


KARDEC, Allan. *Qu’est-ce que le Spiritisme?* Paris, 1859.


KARDEC, Allan. “Caractères de la révélation spirite”. *Revue Spirite: journal d’études psychologiques*, setembro de 1867.


KARDEC, Allan. “Le Spiritisme est-il une religion?”. *Revue Spirite: journal d’études psychologiques*, dezembro de 1868.


PIRES, José Herculano. *O Espírito e o Tempo*.


XAVIER, Francisco Cândido. *O Consolador*. Pelo espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1940.


Referências acrescentadas


CALDAS JUNIOR, A. P. Artigo sobre a concepção da doutrina espírita. A Nova Revelação, São Paulo, [entre 1904 e 1908]. Referência e conteúdo conhecidos, até o momento, por meio do resumo publicado em Le Progrès Spirite. O fascículo original de A Nova Revelação permanece em processo de localização.


LE PROGRÈS SPIRITE. Nota sobre A Nova Revelação e a concepção doutrinária de A. P. Caldas Junior. p. 93, [s. d.]. No texto, é apresentada a divisão do Espiritismo em ciência, religião e filosofia.


FREITAS, Antônio Wantuil de [MINIMUS]. Ciência Religião Fanatismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1938.


Nota: a data de 26 de março de 1937, referente à conferência de Wantuil de Freitas, permanece indicada provisoriamente a partir da informação recebida de Herivelto Carvalho, até que seja localizada a fonte primária correspondente.

1 comentário


Elias Moraes
Elias Moraes
há 8 horas

Muito obrigado pela excelente contribuição.

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