Não precisamos inventar a roda - precisamos fazê-la girar
- 22 de jul.
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por Elton Rodrigues

Em uma conversa recente, ouvi que propor novos protocolos e experimentos sobre mediunidade e fenômenos espíritas seria uma tentativa de “inventar a roda”.
A crítica me pareceu curiosa, sobretudo porque eu não havia reivindicado qualquer inovação extraordinária. Não pretendo anunciar a descoberta de um novo continente, fundar uma nova ciência nem, ao menos por enquanto, patentear o ectoplasma. A proposta era bem mais modesta: continuar pesquisando.
Ainda assim, a metáfora da roda merece ser levada a sério.
Imaginemos que nossos antepassados, depois de construírem uma pesada roda de pedra, tivessem concluído que o problema do transporte estava definitivamente resolvido. Qualquer tentativa de testar outros materiais seria considerada uma afronta aos pioneiros. A roda de madeira poderia ser acusada de revisionismo; o pneu, de desrespeito à tradição; o rolamento, talvez, de cientificismo excessivo. Continuaríamos puxando carroças aos solavancos, mas com a consciência tranquila de quem preservou fielmente a primeira versão.
O problema dessa comparação é que a história da roda demonstra precisamente o contrário do que a crítica pretende sugerir. A roda permaneceu fundamental porque não foi tratada como um objeto acabado. Ela foi redesenhada, adaptada, combinada com novos materiais e incorporada a sistemas cada vez mais complexos. E com a pesquisa científica ocorre algo semelhante.
Revisitar uma investigação não significa simplesmente repetir o que já foi feito. Um fenômeno pode ser estudado novamente com instrumentos mais precisos, registros mais completos, controles mais rigorosos e métodos estatísticos que não estavam disponíveis em outras épocas. Também podemos formular novas perguntas, identificar variáveis antes ignoradas, corrigir falhas experimentais e avaliar se determinados resultados resistem à reprodução independente.
Em ciência, o fato de alguém já ter investigado um problema não encerra o problema. Às vezes, inaugura-o.

Essa necessidade é particularmente importante no estudo da mediunidade e dos chamados fenômenos espíritas. Ao longo dos séculos XIX e XX, pesquisadores sérios dedicaram tempo, recursos e reputação ao exame de fenômenos psíquicos, mediúnicos e físicos. Muitos produziram relatos detalhados, hipóteses interessantes e registros que continuam merecendo atenção. Veja, esse patrimônio não deve ser desprezado. Também não deve ser transformado em escritura sagrada experimental.
Os pesquisadores do passado trabalharam com os recursos conceituais, tecnológicos e metodológicos disponíveis em suas épocas. Reconhecer isso não diminui seus méritos. Compreender as limitações de um experimento é uma forma mais madura de respeitá-lo do que simplesmente repetir suas conclusões como se fossem definitivas.
Rever criticamente um estudo não significa desqualificar quem o realizou. Significa levá-lo a sério o bastante para perguntar se seus resultados podem ser confirmados, ampliados, reinterpretados ou eventualmente rejeitados.
A replicação ocupa, nesse processo, um lugar central. Não basta afirmar que determinado fenômeno foi observado por uma pessoa respeitável, em uma sala específica, sob condições que hoje já não podem ser reconstruídas com clareza. Precisamos saber se algo semelhante pode ocorrer novamente, em quais circunstâncias, com quais controles e diante de observadores independentes.
Precisamos, sobretudo, produzir registros que possam ser examinados por outras pessoas. Sem isso, acumulamos testemunhos. Não necessariamente conhecimento.
No caso de alegações extraordinárias, os cuidados devem ser proporcionais à complexidade do que se afirma. Fenômenos como materializações, transportes de objetos, escrita direta, efeitos físicos ou obtenção anômala de informações envolvem inúmeras possibilidades de erro. É necessário considerar fraudes deliberadas, falhas perceptivas, sugestões involuntárias, vazamento de informações, problemas instrumentais e interpretações precipitadas. Por outro lado, apontar essas possibilidades não equivale a declarar previamente que todo fenômeno seja falso. Equivale apenas a reconhecer que uma conclusão confiável precisa sobreviver a explicações alternativas. E é nesse ponto que os protocolos se tornam indispensáveis. Um protocolo bem construído não existe para impedir que o fenômeno aconteça, mas para tornar o resultado interpretável.
Ele deve estabelecer previamente os objetivos da investigação, os critérios de análise, as condições experimentais, os instrumentos utilizados e as possíveis fontes de erro. Sempre que possível, deve incluir documentação audiovisual contínua, controle do ambiente e dos objetos, observadores independentes, análise laboratorial de materiais, preservação dos dados brutos e divulgação dos resultados negativos.
Sim, resultados negativos.
Eles também fazem parte da ciência, embora raramente ganhem fotografias comemorativas.
Se determinado fenômeno não ocorre sob condições controladas, isso não encerra automaticamente toda a questão. Pode indicar que as condições foram inadequadas, que o fenômeno é instável ou que a hipótese inicial estava errada. Em qualquer desses casos, aprendemos alguma coisa.
O que não podemos fazer é publicar apenas os sucessos aparentes, ignorar os fracassos e depois apresentar o conjunto como uma tradição experimental consolidada. Uma prática assim produz convicção, memória seletiva e, às vezes, belas histórias. Mas não necessariamente conhecimento confiável.
O Espiritismo costuma se apresentar como uma doutrina aberta à observação, ao exame racional e ao confronto com os fatos. Se desejamos levar essa pretensão a sério, não podemos transformar pesquisas históricas em relíquias protegidas contra qualquer revisão. O que quero dizer com isso? Que o conhecimento não avança por veneração documental.
Não se trata, portanto, de apagar Allan Kardec, William Crookes, Charles Richet, Gustave Geley, Ernesto Bozzano ou tantos outros investigadores. Trata-se de estudá-los historicamente, compreender seus métodos, reconhecer seus acertos e identificar suas fragilidades. Depois disso, precisamos continuar.
Algumas hipóteses antigas talvez sejam fortalecidas por novas investigações. Outras poderão ser reformuladas. Algumas provavelmente terão de ser abandonadas. Esse risco não é um defeito da pesquisa. É justamente o que diferencia uma investigação aberta de uma doutrina que apenas procura confirmar a si mesma.
Talvez o maior problema não seja tentar inventar a roda, mas conservar a roda antiga em uma vitrine e imaginar que sua simples existência ainda seja capaz de nos transportar.
Uma tradição intelectual viva não se limita a dizer que grandes pesquisadores fizeram experiências no passado. Ela cria novos instrumentos, aperfeiçoa métodos, registra erros, revisa conclusões e aceita submeter as próprias convicções a testes. Dessa forma, torna-se necessário conhecer as rodas anteriores, como foram construídas, em quais terrenos funcionaram e por que algumas quebraram.
Mas também precisamos testar novos materiais, revisar os eixos, melhorar os rolamentos e verificar se os freios funcionam. Afinal, se realmente queremos caminhar na construção do conhecimento espírita, não basta garantir que a roda esteja preservada.
É preciso verificar se ela ainda gira.


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