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O Instituto Entrevista: Vozes da Fé, com Roseana Marques

há 1 dia
6 min de leitura

1) Fale um pouco sobre quem é você e sobre a sua trajetória até esse momento.


Meu nome é Roseana Marques, nasci em São Luís, no Maranhão. Estou com 68 anos, no meu terceiro casamento há nove anos, e tenho um filho de 48 anos.


Comecei a trabalhar aos 17 anos. Fui secretária, advogada e Juíza do Trabalho concursada. Aposentei-me do Tribunal aos 57 anos. Depois, fiz uma segunda graduação, em Psicologia, e trabalhei até os 65 anos como psicóloga voluntária em duas ONGs. Atualmente, estudo Filosofia nos grupos Ataraxia, Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires, o IFEHP, e Instituto Espírita de Estudos Filosóficos, o IEEF.


Venho de uma família católica e de classe média. Saí de São Luís e vim para o Rio de Janeiro quando tinha seis anos. Dos sete aos quinze, estudei em colégio de freiras. Eu era uma criança muito impressionável. Se via um filme de monstro, por exemplo, tinha pesadelos e acordava assustada.


Minha avó paterna era a única espírita da família e frequentava, com muita discrição, ou melhor, quase escondido, um centro espírita de “mesa branca”, como eram chamados antigamente alguns centros que reuniam práticas kardecistas e umbandistas.


Aos 16 anos, comecei a ter crises de ansiedade e visões. Minha mãe me levou a psiquiatras, neurologistas e psicólogos. Os médicos e os exames não apuraram qualquer anomalia mental. Eu era uma adolescente orientada e articulada, mas muito sensível e intensa. Tinha crises de pânico e ouvia vozes na minha cabeça dizendo, por exemplo, para eu gritar ou me atirar entre os carros. Era um filme de terror mesmo. Eu vivia com medo de ter essas crises. Confesso que, lá no fundo, ainda existe um pequeno receio, mas hoje me trato com psiquiatra e psicólogo.


Foi então que pedi auxílio à minha avó espírita. Ela me levou ao centro de “mesa branca” que frequentava. Lá, tive uma consulta com uma médium que, mediunizada, me disse: “Filha, você tem 10% de mediunidade e 90% de piti”. Ela recomendou que eu lesse "O Livro dos Espíritos" e "O Evangelho Segundo o Espiritismo" e, depois, retornasse para trabalhar no centro.


E assim fiz. As reuniões mediúnicas eram públicas, com todos os médiuns vestidos de branco, em volta de uma mesa, dando passividade ao mesmo tempo, enquanto alguns “doutrinadores” conversavam com os Espíritos. Não havia estudo. Frequentei esse centro dos 17 aos 21 anos. Gostava de todos e reconhecia que era um lugar sério, mas não me encaixava. A maioria das pessoas era muito mais velha do que eu e eu tinha muitos questionamentos que não eram acolhidos.


Nesse período, casei aos 19 anos e me separei aos 21, com um filho de um ano.


Dos 22 aos 32 anos, frequentei e trabalhei em um centro espírita kardecista que seguia as orientações da FEB. Nesse centro, participei da Mocidade e da Reunião Mediúnica.


Dos 33 anos até os atuais 68, portanto há 35 anos, frequento o Centro Espírita Amor, Caridade e Esperança, o CEACE, em Botafogo. É um local que, embora ainda reflita aspectos de uma sociedade conservadora, vem caminhando para um viés mais progressista, sem fazer distinção entre frequentadores e trabalhadores por etnia, orientação sexual, sexo, posição política ou classe social. Questões atuais da sociedade também são problematizadas nas reuniões públicas em diálogo com "O Livro dos Espíritos" e "O Evangelho Segundo o Espiritismo".


O estudo, a mediunidade e a assistência social são os pilares da Casa. Atualmente, trabalho em reunião mediúnica, como facilitadora em palestras e cursos, no atendimento fraterno e no passe a domicílio para enfermos. Também participei da diretoria da Casa durante 12 anos, ocupando o cargo de segunda vice-presidente, do qual me desvinculei há dois anos.


2) Você se considera uma pessoa religiosa? Explique sua perspectiva sobre a sua relação com religião, religiosidade, crenças ou descrenças e sobre como você entende o mundo a partir disso.


Eu me considero uma pessoa que acredita na transcendência e, portanto, na espiritualidade. Apesar de, no Brasil, o espiritismo kardecista ter se transformado em religião, para mim ele não tem essa conotação. Eu o vejo como uma filosofia de vida.


Concordo com Márcio Sales Saraiva quando, em seu livro "Espiritismo hoje: breve introdução", afirma, em síntese, que, se uma pessoa crê nos cinco princípios básicos do Espiritismo — existência de Deus, imortalidade da alma, pluralidade das existências ou reencarnação, pluralidade dos mundos habitados e comunicabilidade —, mesmo que tenha outra religião, pode ser considerada espírita.


Não creio em um Deus punitivista ou simplesmente bondoso, mas em uma Causa Primária que é puro Amor, com leis complexas que são descobertas pelos seres em cada etapa evolutiva, em direção à emancipação e ao retorno consciente para essa Força Criadora.


Percebo o estar neste mundo como expiação, prova e também como contexto histórico, ancorado na Lei de Causa e Efeito. Essa concepção responde, de forma razoável para mim, à maioria dos questionamentos existenciais. No entanto, em termos absolutos, não tenho respostas que satisfaçam a totalidade dos eventos humanos. Ou seja, não conquistei a preconizada fé inabalável.


3) Quais valores, princípios ou práticas, individuais e/ou coletivas, são centrais para você hoje? Como isso aparece no seu cotidiano, nas suas decisões, relações e na forma como você lida com dificuldades?


A prática do respeito nas relações humanas é central para mim.


No campo pessoal, procuro acolher os próximos mais próximos. Sempre privilegiei cuidar da minha família nas dificuldades e valorizar, em todos os sentidos, as pessoas que, por alguma circunstância, me auxiliam na prestação de serviços.


No meu entendimento, auxiliar quem está longe sem se importar com quem está por perto não faz muito sentido. Por isso, meu primeiro impulso costuma ser perguntar: “Posso fazer alguma coisa por aquela pessoa que está no meu raio de ação?”. Se posso, procuro me esforçar para ter uma atitude que realmente a atenda.


Outra coisa que mudou em mim foi aprender a perguntar ao outro o que ele quer de mim. Quando eu era mais nova, minha tendência era fazer aquilo que eu achava que seria melhor para a pessoa. Hoje venho mudando esse comportamento.


No que diz respeito às minhas habilidades e àquilo que consegui realizar, o fato de ter trabalhado como psicóloga voluntária dos 61 aos 65 anos, de ter sido ledora em uma instituição para pessoas com deficiência visual durante três anos e de ter pautado meu trabalho como secretária, advogada e juíza pela seriedade me traz um sentimento de realização muito legítimo.


As dificuldades foram muitas, principalmente no campo financeiro. Houve uma época em que praticamente só via meu filho nos fins de semana, porque batia ponto durante o dia, fazia faculdade de Direito à noite, de segunda a sexta-feira, e fui praticamente mãe solo.


Hoje, com a estabilidade que adquiri, minha preocupação maior está na saúde e em envelhecer bem, cuidando da mente e do corpo. Ah... também estou aprendendo a respeitar os meus limites, a me desapegar e a me proteger daquilo que me faz mal. Isso inclui não ouvir notícias o dia inteiro, evitar filmes de guerra, deixar de ir a programas aos quais, na verdade, não quero ir. Enfim, aprender a dizer “não” para algumas coisas às quais, durante muito tempo, eu dizia “sim”, mesmo me fazendo mal.


4) Você participa de algum movimento, grupo, instituição ou frente de trabalho ligada à fé ou espiritualidade? Conte qual é a sua atuação e o que você busca construir com isso.


Sim. Como expliquei anteriormente, minha atuação no centro espírita é bastante ampla. Trabalho no atendimento fraterno, em reunião mediúnica, na exposição de estudos e na coordenação do passe a enfermos.


Eu busco levar um pouco da minha melhor parte para esses trabalhos, principalmente no passe a enfermos, que ocorre, na maioria das vezes, em hospitais. Sinto que consigo transmitir algum alívio e amorosidade, e tenho aprendido muito com pessoas que, muitas vezes, desencarnam poucos dias depois.


Acompanhar essa fase da vida não é fácil, mas é muito elucidativo e conscientizador em relação à impermanência da matéria.


O público atendido é formado, em sua maioria, por frequentadores do centro espírita e por pessoas das adjacências de Botafogo, Flamengo e Laranjeiras, no Rio de Janeiro.


5) Quais são os principais desafios ou mal-entendidos que você percebe sobre esse tipo de vivência e atuação? Como você busca dialogar com quem pensa diferente? E, para quem está conhecendo agora, como as pessoas podem acompanhar, participar ou apoiar?


O principal desafio, para mim, consiste em desmistificar a persona do espírita, tanto dentro quanto fora da casa espírita.


Faço questão de dizer que tomo medicação psiquiátrica para pânico, vou ao psicólogo, tenho muitas dúvidas sobre questões da doutrina e não concordo com algumas posições de Kardec. Já fiz muita bobagem também. Fumei durante 30 anos, por exemplo. Procuro deixar explícitas essas minhas imperfeições.


O fato de eu ter sido juíza, ter participado da direção de um centro espírita e trabalhar com mediunidade há 51 anos pode acabar criando uma aura de evolução que é irreal. Isso me incomoda, porque estamos falando de estereótipos.


Procuro fugir dessa imagem, embora nem sempre consiga, porque às vezes a vaidade fala mais alto também. Enfim, essa é uma luta que travo diariamente.


Não participo especificamente de nenhum canal, mas considero excelente o **Ágora Espírita**, fundado pelo escritor e professor Alexandre Júnior, que promove reflexões a partir de uma perspectiva histórico-cultural, política e moral.


Também considero muito importante o trabalho do "IFEHP — Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires", que atua no resgate histórico de pensadores espíritas em diálogo com Allan Kardec.

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